Menos preenchimento, mais lifting? Por que a cirurgia facial voltou à cena

Kris Jenner tem 69 anos e não fez segredo de sua decisão de passar por um segundo lifting facial. “Para mim, envelhecer com graça é isso. É a minha versão”, afirmou em entrevista à Vogue Arabia no ano passado, ao explicar que cada pessoa deve encontrar a própria maneira de lidar com a passagem do tempo.

Depois dela, outros rostos famosos passaram a chamar a atenção pela aparência leve, fresca, cool, levantado uma avalanche de especulações sobre o que teriam feito. Anne Hathaway, Lindsay Lohan, Emma Stone foram algumas que tiveram o nome associado à técnica, mas não confirmaram. Enquanto a atriz Denise Richards, assim como Kris Jenner, assumiu que fez o procedimento.

Em tempos de quiet beauty, de procedimentos não-invasivos, do “menos é mais”, por que o a cirurgia plástica facial voltou a ser assunto e, mais ainda, passou a ocupar lugar de destaque em muitas clínicas? “Existe uma mudança clara na expectativa dos pacientes. Eles querem rejuvenescer, mas continuar parecendo eles mesmos”, afirma o cirurgião plástico Paolo Rubez, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Na carona da chama beleza natural, procedimentos minimamente invasivos passaram a angariar entusiastas. Mas a má indicação, grandes quantidades, erros de aplicação por profissionais não habilitados, começaram a surtir um efeito contrário. “Acredito que um dos fatores que colaboraram para trazer a cirurgia facial de volta foram os exageros da chamada harmonização facial”, analisa Eduardo Lintz, membro da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), da SBCP e ex-presidente da Associação dos ex-alunos do Professor Pitanguy. “Isso e, claro, o fato de o facelift ter evoluído e hoje trazer resultados mais naturais e mais efetivos, com técnicas como o deep plane, em que é feita uma abordagem no plano muscular da face, que respeita o posicionamento individual de cada paciente”, completa.

O interesse pelo procedimento não se limita às celebridades. De acordo com a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), foram realizados cerca de 737 mil liftings faciais por cirurgiões plásticos no mundo em 2024, uma alta de 7,4% em relação ao ano anterior, e de 75,9% na comparação com 2020.

No Brasil, uma pesquisa recente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), feita pelo Datafolha entre especialistas associados, mostra que a cirurgia de face teve um aumento de 4% em 2025, quando comparada ao último levantamento, referente à setembro de 2007 e agosto de 2008. “A grande evolução da cirurgia facial não está em fazer rostos parecerem cada vez mais jovens, mas em permitir que as pessoas envelheçam bem, preservando sua identidade”, diz o cirurgião plástico e diretor da SBCP Alexandre Piassi.

A ideia de que uma cirurgia bem-sucedida precisa apagar rugas ou transformar o rosto vem perdendo espaço para uma busca por resultados individualizados, que respeitem os traços e as expressões de cada pessoa. Para o dr. Paolo Rubez, o planejamento deve levar em conta as características faciais, as proporções e a identidade de cada paciente. O que se busca não é apagar a história de um rosto, mas buscar uma aparência mais descansada sem descaracterizá-lo.

A cirurgiã plástica Beatriz Lassance segue uma linha semelhante: chegar aos 60 anos não significa precisar parecer ter 40. A qualidade do resultado está ligada à preservação da expressão, dos volumes e dos elementos que tornam cada rosto reconhecível. A discussão também acompanha uma população que envelhece e que, em muitos casos, deseja cuidar da aparência sem recorrer a mudanças radicais.

É justamente essa expectativa que ajuda a explicar por que o lifting voltou ao radar. O envelhecimento facial não acontece apenas na pele. Ele envolve alterações na distribuição da gordura, nos músculos, nos ligamentos e nas estruturas ósseas. Um procedimento que considera apenas a superfície pode trazer aquele efeito muito esticado — uma das razões de a cirurgia facial ter sido escanteada. “Um rosto excessivamente tensionado pode indicar que a pele foi submetida a uma tração maior do que deveria, sem que outras estruturas importantes tenham sido adequadamente consideradas”, esclarece a dra. Flávia Bonato, cirurgiã plástica membro da SBCP . “O objetivo não é transformar a identidade do paciente, mas restaurar estruturas que sofreram alterações com o envelhecimento, preservando a naturalidade.”

Deep plane, glow up, facelift disfarçado…

O lifting facial tradicional pode envolver diferentes estratégias de reposicionamento dos tecidos. Uma estrutura importante nesse planejamento é o SMAS, sigla em inglês para o sistema músculo-aponeurótico superficial, uma camada de tecido que recobre parte dos músculos da face. As técnicas variam na maneira como tratam essa estrutura e reposicionam os tecidos.

No deep plane, que ganhou até o apelido de “lifting disfarçado”, o trabalho é realizado em um plano mais profundo, mobilizando estruturas faciais em conjunto. Segundo o cirurgião plástico Eduardo Lintz, a abordagem pode ser especialmente útil em pacientes com flacidez mais acentuada na região central da face, sulcos nasolabiais marcados e perda de definição no contorno do pescoço. A liberação de ligamentos que retêm os tecidos pode facilitar seu reposicionamento.

Isso não significa que a técnica seja indicada para todas as pessoas. O resultado depende da anatomia, da qualidade da pele, do grau de flacidez e das características que cada paciente deseja tratar. “Não existe uma técnica única para todos os rostos”, ressalta o cirurgião plástico Marcelo Rudy, membro da SBCP. O planejamento pode variar conforme os vetores de reposicionamento, as estruturas priorizadas e a necessidade de associar outros procedimentos.

A naturalidade, como se vê, não é uma garantia associada ao nome da técnica. A promessa de um resultado discreto pode tornar o lifting mais atraente, mas não elimina os riscos de uma cirurgia. O procedimento envolve anestesia, recuperação e possíveis complicações, e os resultados variam de acordo com as características individuais e a técnica utilizada. Por isso, a escolha do profissional, a formação em cirurgia plástica e a conversa franca sobre expectativas são etapas inegociáveis para quem deseja recorrer ao procedimento. “Tão importante quanto saber qual técnica utilizar e como fazer é saber se deve fazer”, conclui o dr. Eduardo Lintz.

FONTE:/vogue/BR

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