Há uma mudança comportamental grande entre a sua época como jogador de base e os meninos de hoje?
A regra é clara: no CT, por exemplo, nós cortamos o uso de celular. Entrou no CT não pode usar celular. Sempre tem um espertinho que tenta nos driblar, mas é proibido. Antigamente, a gente morava em alojamento com 50 pessoas e o foco era jogar. Hoje, há uma cultura de querer postar qualquer drible ou gol de pênalti para parecer um atleta de excelência. É isso que tem sido passado para os meninos e tenho feito o inverso. Aviso aos atletas e às famílias: quando a fase é boa, a rede social é ótima; quando há um erro ou um pênalti perdido, a cobrança vem em dobro e eles não estão preparados mentalmente para essa pressão. A orientação é construir a carreira dentro de campo, não na internet.
Como funciona essa restrição do telefone no dia a dia do CT?
Aqui no clube, o convívio é diário. No almoço, no jantar ou no café da concentração, se tiver celular, não há diálogo. A partir do momento em que o atleta entra no vestiário, na concentração ou no CT, precisa haver descontração, alegria da convivência. Digo para eles: ‘Entrou no CT, procure deixar os problemas lá fora’. Não dá para ficar no telefone faltando dois minutos para entrar em campo. Por isso, entrou no CT o celular fica guardado. O objetivo é mantê-los 100% focados no que o clube precisa e nas informações do jogo, deixando a cabeça livre para entregarem o resultado, que é primeiro passo para a formação individual deles e, consequentemente, para o coletivo. Ainda não está 100% como imagino, mas já demos passos positivos.
Em partidas recentes, o Santos chegou a ter cerca de 40% dos relacionados vindos da base. Existe uma meta interna de atletas formados no clube compondo o elenco profissional?
Não temos uma meta percentual engessada. Acredito que o Santos tem potencial para ter uma equipe composta majoritariamente por jogadores formados em casa. Essa mescla de jovens com atletas experientes é o que sempre deu certo na história do clube. Não é algo simples, mas o Santos talvez seja o único clube do mundo que, com um planejamento, consegue ter um time titular formado na base. Torcemos para organizar a casa, especialmente com resultados no profissional, para conseguirmos colocar cada vez mais meninos em campo.
O futebol brasileiro tem pecado na formação em alguma posição específica?
Acredito que alguns treinadores de base se preocupam demais com o resultado pessoal e preferem jogar por uma bola. É claro que todo time precisa ser organizado e cada clube tem seu modelo de jogo e conceito. No entanto, se você não encoraja os jogadores – independentemente da divisão ou da camisa -, você deixa de formar o atleta por completo. Quando o técnico se preocupa apenas em defender e decidir em um lance, o tempo passa e o garoto não se desenvolve, correndo o risco de perder a carreira. Podem dizer que é fácil eu falar isso por estar no Santos, mas quando fui treinador da Inter de Limeira, meu time jogava de forma ofensiva. Na base, independentemente da expressão do clube, presidentes, gestores e treinadores precisam determinar que suas equipes joguem de forma propositiva. Os times têm que se enfrentar de peito aberto, sem focar tanto no placar. A exceção é o sub-20, onde há o componente do rebaixamento e exige um cuidado maior. Nas outras categorias, precisamos propor o jogo. Só assim vamos formar laterais, pontas e meias com as características do futebol brasileiro para abastecer a seleção.
O Kauan Basile gera uma expectativa em Santos parecida com a que acompanhou nomes como Diego, Robinho e Neymar na infância. Ele é realmente diferenciado?
FONTE:Google Notícias



