Quando o discurso da desconstrução vira estratégia de conquista

Uma pesquisa do aplicativo happn com usuárias brasileiras revelou que 74% das entrevistadas afirmam perder o interesse quando percebem que o discurso do pretendente não corresponde às suas atitudes. Nas redes sociais, esse comportamento ganhou um nome: homem performático. A expressão descreve aquele que fala de feminismo, vulnerabilidade e responsabilidade afetiva, conhece o vocabulário da desconstrução e parece utilizá-lo para causar uma boa impressão. Segundo o levantamento, 38% das usuárias já identificaram pautas sociais utilizadas como estratégia de conquista, enquanto 53% valorizam mais quando os princípios aparecem naturalmente na conversa, sem necessidade de anunciá-los.

A preocupação com a imagem que apresentamos ao outro sempre fez parte da sedução. Num primeiro encontro, escolhemos o que contar, omitimos certas histórias, procuramos parecer interessantes e, muitas vezes, nos comportamos de maneira diferente da habitual. A formulação de Lacan de que o desejo é o desejo do Outro permite pensar na importância que atribuímos ao olhar alheio e ao lugar que imaginamos ocupar nele. Queremos ser desejados e procuramos descobrir o que nos tornaria desejáveis. Os critérios mudam conforme a época, e características como a sensibilidade e a disponibilidade emocional passaram a receber maior reconhecimento nas relações amorosas. É compreensível que essas qualidades também tenham adquirido importância na maneira como algumas pessoas procuram despertar interesse.

Seria precipitado, porém, concluir que todo homem que adota esse discurso esteja deliberadamente tentando enganar alguém. Nem sempre conhecemos as razões do nosso comportamento, e a imagem que fazemos de nós mesmos pode ser bastante diferente da maneira como nos relacionamos com os outros. Alguém pode acreditar sinceramente que sabe escutar e, ainda assim, ter dificuldade para ouvir quando é contrariado. Pode defender a autonomia do parceiro e se sentir inseguro diante de sua independência. Pode considerar-se emocionalmente disponível sem perceber o quanto evita situações que exigem envolvimento. É possível acreditar nos próprios valores e continuar reproduzindo comportamentos que os contradizem, sobretudo porque reconhecer uma ideia como importante não significa ter elaborado os conflitos que ela desperta.

Freud escreveu que ninguém consegue guardar inteiramente um segredo, pois, mesmo quando os lábios se calam, as pontas dos dedos acabam falando. Nas relações amorosas, nem sempre precisamos procurar manifestações tão sutis. Uma pessoa pode falar longamente sobre a importância da escuta e interromper o outro a cada tentativa de contar alguma coisa. Pode defender relações mais igualitárias e demonstrar irritação quando o parceiro toma a iniciativa ou estabelece um limite. Essas contradições costumam aparecer na convivência, quando já não é tão simples controlar a impressão que causamos e nossas maneiras habituais de reagir começam a se manifestar.

O feminismo contribuiu para modificar as expectativas de muitas mulheres em relação aos relacionamentos, e essas transformações também alcançaram a maneira como as pessoas se apresentam durante a conquista. Características que antes podiam ser consideradas pouco masculinas passaram a ser valorizadas, enquanto certos comportamentos passaram a ser mais questionados. Há homens que vêm revendo suas posições e construindo formas mais igualitárias de se relacionar. Em outros casos, a familiaridade com esse vocabulário pode estar mais avançada do que as mudanças efetivas de comportamento. Aprender a falar sobre igualdade costuma ser mais simples do que reconhecer atitudes de controle, lidar com frustrações ou modificar hábitos adquiridos ao longo da vida. Essas dificuldades, naturalmente, não se restringem a um gênero.

Os dados da pesquisa sugerem diferenças entre as gerações. Entre as mulheres da geração Z, 52% valorizam a presença de posicionamentos progressistas nos perfis dos pretendentes, mas 32% afirmam já ter identificado repetidas vezes homens que apenas aparentavam defender esses valores. Entre as mulheres acima de 35 anos, 46% preferem não misturar política e relacionamentos. A pesquisa não esclarece as razões dessas preferências, mas os resultados mostram que as expectativas em torno da paquera não são uniformes. Também permitem pensar em como determinados valores, quando passam a ser desejados, podem acabar incorporados à apresentação pessoal, nem sempre acompanhados de mudanças equivalentes nas atitudes.

Uma pergunta permanece: até que ponto alguém está tentando convencer o outro e até que ponto procura convencer a si mesmo? Freud dedicou boa parte de sua obra a investigar como podemos desconhecer aspectos importantes dos nossos desejos e conflitos. É possível sustentar convicções sinceras e agir de maneira contrária a elas, sem compreender inteiramente o que nos leva a repetir determinados comportamentos. Uma pessoa pode acreditar que construiu uma maneira mais livre e igualitária de se relacionar e descobrir, diante do ciúme, da rejeição ou de uma frustração amorosa, que ainda carrega inseguranças e expectativas difíceis de abandonar.

Os aplicativos de relacionamento favorecem a apresentação de uma versão resumida e cuidadosamente escolhida de quem somos. Fotografias, interesses, opiniões e algumas frases precisam despertar o desejo de alguém que ainda não nos conhece. Nesse ambiente, o vocabulário da desconstrução pode funcionar como mais um atributo desejável, especialmente quando corresponde às expectativas de quem está do outro lado da tela. A dificuldade aparece quando a relação começa a exigir mais do que uma boa apresentação. É na convivência, sobretudo diante das diferenças e dos conflitos, que percebemos quanto daquilo que acreditamos sobre nós mesmos conseguimos sustentar. E talvez essa descoberta seja tão importante para quem deseja conquistar quanto para quem deseja ser conquistado.

FONTE:/vogue/BR

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