Afinal, a menos de 3 meses de 2027, o amor e o desejo têm idade ou são sem idade? A sua resposta vale para ficção e realidade ou só para um dos dois? Responda para você, com sinceridade. Eu trago essa pergunta na carona de uma cena recente da novela Quem Ama Cuida, da Globo, em que a personagem Dora, interpretada por Mariana Ximenes, comenta sobre os olhares preconceituosos que recebeu simplesmente por estar com o namorado, mais novo que ela.
Dora conversava com Patrick, homem que sai com uma mulher bem mais nova que ele. Os dois falavam sobre o preconceito etário ser maior quando a mulher é a mais velha do par. Levei para o @vivaacoroa, e vale ler os comentários por lá, um território livre para expressão. Ali, uma mulher de 58 anos, casada com um homem de 43 anos, contou que sofre preconceito, sim. “As pessoas variam de opinião, ou dizem que sou rica e banco ele, ou que ele vê em mim a figura materna que não teve.” Outra coroa dividiu uma técnica para amenizar o preconceito, “não dou a mínima”, ela disse.
A forma como reagimos diz muito sobre nós e eu apoio ela, concordo, ela faz bem. No entanto, se há a reação, há o preconceito. E ele é o que tem que ser combatido. Mais de uma pessoa comentou que as fontes do etarismo, não raro, são as próprias mulheres. Machuca mais ser julgada por outra mulher? Eu acho que sim. Preconceito não tem corte de gênero…e nem de idade, infelizmente. E mais: atravessa o tempo.
No último mês, chegou ao Brasil a tradução do livro A carne, da escritora espanhola Rosa Monteiro. Na obra, lançada originalmente em 2016, está o relacionamento de uma mulher mais velha e de um homem mais novo. Sem spoiler, era para ser só um caso, com acordo comercial mesmo, ele era gigolô. Mas a relação cresce… O lançamento da tradução rendeu entrevistas da autora. Perguntaram a ela se “houve alguma mudança na percepção pública do desejo de uma mulher de 60 anos nesses dez anos entre a publicação de A Carne e sua chegada ao Brasil. A resposta: “Não sei se melhoramos nisso ou não. Dez anos também não é muito tempo para mudar preconceitos profundos”. Muito lúcida.
É que o relacionamento entre homens mais velhos e mulheres mais novas têm aceitação histórica. Era normalizado mesmo quando era absurdamente absurdo. Falo dos tempos dos inexplicáveis casamentos com infantas (tinha o entre infantes também). Enquanto isso, o relacionamento entre mulheres com mais idade e homens com menos idade ainda “causa” mesmo a menos de 3 meses de 2027. Como explicar isso? Vou usar uma palavra só: patriarcado.
Filmes, livros, séries, novelas levantam a boa bandeira do amor livre de idade para mulheres. Desde Samantha Jones até Dora. Mas, na vida como ela é, ainda é bem diferente. E isso é triste, porque é reacionário. Eu celebro toda forma de amor e de desejo a partir dos 18 anos. Se há um corte etário, para mim, é esse. E ponto.
Não poderia terminar essa coluna sem citar a clássica dobradinha “é muito mais nova/novo, deve ser por dinheiro”. A suposição de um interesse financeiro das pessoas mais jovens em relação às mais velhas do casal é um clichê entre quem julga amores e desejos intergeracionais. E se for interesse? Que diferença faz para quem não é do círculo de dependentes do casal? Me conta? Eu te conto que acho curioso o seguinte: quando a mulher é a mais nova, normalmente ela é vista como a víbora, e ele como o cara que “tá se dando bem com a novinha”; quando ela é a mais velha, ela é vista como vítima, uma coitada, caindo em um golpe, de um cara que “tá se dando bem com a coroa”.
Ou seja: a mulher é sempre ou a nojenta ou a coitada. O homem, nos dois casos, é visto como “o cara”. De um jeito ou de outro é o homem que se dá bem. E sabe por quê? Mais uma vez: patriarcado.
Pois é. Tenho uma dica para todas essas pessoas que se comportam como fiscais da idade, do amor e do desejo alheio: cuidem da própria vida, do próprio desejo e do próprio amor. A vida fica bem melhor assim. E o mundo também.
FONTE:/vogue/BR



