O etarismo não escolhe gênero. Mas a verdade é que, para as mulheres, ele é mais uma camada na lista de preconceitos e tabus. No mercado de trabalho, por exemplo, vemos o número de profissionais maduras crescer, mas a menopausa ainda pode colocar a competência em dúvida.
Justamente quando muitas mulheres acumulam experiência, ocupam posições de liderança ou se preparam para empreender, persiste a ideia de que essa fase da vida vem acompanhada de uma perda de produtividade. O preconceito ignora tanto os desafios reais de saúde que algumas enfrentam quanto o conhecimento e a bagagem que construíram ao longo da carreira.
Uma pesquisa de 2025 da farmacêutica Astellas, realizada em seis países com 13.800 participantes, incluindo 2.300 do Brasil, mostrou que 47% das brasileiras entrevistadas tiveram algum impacto negativo da menopausa no trabalho. Para se ter uma ideia, 17% sentiram medo de contar aos colegas que estavam nessa fase e 9% relataram discriminação explícita. Apenas 29% das trabalhadoras se sentiam à vontade para conversar com a liderança sobre o assunto. O levantamento também revelou que 79% das brasileiras ouvidas tiveram sentimentos psicológicos negativos relacionados à menopausa, como ansiedade, constrangimento e vergonha.
Os sintomas podem, de fato, interferir na rotina, mas o estigma torna ainda mais difícil falar sobre eles e buscar ajuda. “Hoje já se fala no tema, mas isso apenas não basta”, observa Andrea Tenuta, head de Novos Negócios da Maturi, empresa especializada em diversidade etária no mercado de trabalho. Para ela, faltam políticas estruturadas nas organizações e preparo das lideranças para lidar com as necessidades dessas profissionais.
A importância dessa discussão só tende a crescer. Projeções do IBGE citadas pelo Ministério das Mulheres estimam que o Brasil tenha cerca de 37 milhões de mulheres entre 40 e 65 anos, faixa que abrange boa parte da transição menopausal. Esse contingente representa quase 20% da população brasileira, e sua experiência profissional não pode ser descartada por preconceitos relacionados à idade.
Os sintomas existem. A competência também
Quem já passou por uma noite mal dormida e precisou encarar uma agenda cheia sabe como é difícil manter a concentração. Para algumas mulheres na perimenopausa, fase de transição que antecede a menopausa, isso se torna recorrente. Foi o que aconteceu com Camila Faus, cofundadora da SHE_T, plataforma que fala sobre saúde da mulher, maturidade e menopausa, que começou a ter dificuldades para dormir e percebeu mudanças no raciocínio e no foco. “Passei a anotar tudo, colocar post-it em todos os lugares”, conta. A adaptação ajudou, mas ela percebeu que além de reorganizar a rotina precisava buscar informação e ajuda para lidar com os sintomas.
O ginecologista Luciano Pompei, membro da Comissão Nacional de Climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), diz que para mulheres cujos sintomas prejudicam a qualidade de vida, a reposição hormonal pode ser uma boa opção, desde que haja avaliação médica individualizada. “Existem também tratamentos não hormonais para quem tem contraindicações ou prefere outras alternativas”, acrescenta. O especialista observa que, hoje, as mulheres vivem esse período extremamente produtivas, realizadas e com muitos planos pela frente. “A medicina atual tem condições de ajudá-las, para que possam continuar tendo a sua vida, a sua carreira profissional, seus relacionamentos… Porque a gente consegue trazer um bom alívio aos sintomas, melhorando a qualidade de vida.”
Aos 63 anos, Laurena Magnoni, CEO da Besins Healthcare, conta que alterações no sono, na energia e na concentração exigiram atenção quando ela passou pela transição menopausal, mas não a fizeram questionar sua capacidade profissional. Informação, acompanhamento médico, atividade física e autoconhecimento fizeram parte de suas escolhas. “Continuei assumindo desafios e responsabilidades, entendendo que a menopausa representa uma transformação, mas não diminui nossa competência, nossa ambição ou nossa capacidade de liderança”, afirma.
A maturidade que o mercado ainda não enxerga
Há uma grande ironia em associar a menopausa ao declínio profissional justamente quando tantas mulheres acumulam décadas de experiência. Nessa fase, elas conhecem os atalhos, sabem reconhecer processos que não funcionam e têm mais clareza sobre onde vale a pena investir tempo e energia. Para algumas, a maturidade vem acompanhada de mais autonomia para empreender ou escolher projetos alinhados aos próprios interesses; para outras, representa a continuidade de uma carreira que ainda tem muito a oferecer.
Camila percebeu essa mudança na própria relação com o trabalho. Apesar das dificuldades iniciais com o sono e a concentração, ela passou a escolher melhor suas prioridades e a gastar menos energia com conflitos improdutivos. “Essa maturidade traz para a gente uma leveza nos processos de trabalho e na própria produtividade que eu não tinha com 20 anos”, diz.
Para Andrea Tenuta, muitas mulheres chegam à transição menopausal em posições de destaque, conciliando as exigências profissionais com responsabilidades familiares. O preconceito etário pode tornar essa equação ainda mais difícil, especialmente quando a mulher sente que precisa provar continuamente que segue atualizada, competente e preparada para liderar.
Em um mundo ideal, as organizações já estariam levando as necessidades dessa profissional em conta. Rever a temperatura dos ambientes, permitir ajustes de rotina quando necessários, preparar gestores para conversar sobre o assunto… fariam uma boa diferença.
Laurena defende programas de saúde da mulher que acompanhem diferentes etapas da vida, com informação, orientação e acesso a cuidados. Na Besins Healthcare, por exemplo, o assunto faz parte da cultura da empresa. Dos 174 colaboradores, 104 são mulheres. Além de oferecer flexibilidade no trabalho, a companhia subsidia integralmente o tratamento de reposição hormonal mediante apresentação de receita médica. Para Andrea, acolher essas profissionais também é uma decisão de negócio. Uma empresa que cria condições para que elas cuidem da saúde tem mais chances de preservar talentos, conhecimento e experiência. Ignorar o assunto pode significar perder mulheres qualificadas por uma questão que poderia ser enfrentada com informação e apoio.
Aos 63 anos, Laurena continua fazendo planos, assumindo desafios e acreditando no que ainda pode realizar. Camila vê na maturidade uma relação mais consciente com o tempo e com as próprias escolhas. São experiências que mostram que a menopausa não determina o limite da trajetória profissional de uma mulher.
FONTE:/vogue/BR



