Magical Mystery Tour e os Beatles sem mapa

Em 1967, os Beatles já tinham descoberto que quase tudo era permitido. Depois de Rubber Soul, Revolver e Sgt. Pepper’s, o estúdio havia virado laboratório, brinquedo e instrumento musical. Faltava descobrir o que aconteceria se entregassem uma câmera a eles.

Deu errado. E ficou interessante.

Magical Mystery Tour nasceu de uma ideia de Paul McCartney. Em setembro daquele ano, os Beatles colocaram amigos, familiares, atores e uma equipe de filmagem dentro de um ônibus e partiram de Londres para o oeste da Inglaterra. A proposta era registrar uma viagem sem roteiro convencional, povoada por personagens estranhos, situações improvisadas e números musicais. Os próprios Beatles escreveram e dirigiram o filme.

O problema é que liberdade criativa não substitui roteiro.

Transmitido pela BBC One em 26 de dezembro de 1967, Magical Mystery Tour foi recebido com uma chuva de críticas. Cerca de 15 milhões de pessoas assistiram ao programa, que ainda teve a infelicidade de ser exibido em preto e branco, embora tivesse sido filmado em cores. A psicodelia dos Beatles chegou às casas britânicas sem justamente aquilo que deveria fazê-la funcionar: a cor.

A imprensa não perdoou. A reação foi tão negativa que a planejada exibição americana acabou não acontecendo, e o filme entrou para a história como um dos grandes tropeços dos Beatles.

Revisto hoje, porém, é mais curioso que ruim.

A narrativa continua frouxa, o humor envelheceu de maneira irregular e algumas cenas parecem ter sido deixadas ali porque ninguém teve coragem de cortá-las. Mas quando a música entra, o filme encontra sua razão de existir. I Am the Walrus é um dos melhores exemplos. Lennon, cercado por uma estética delirante, parece ter escapado de dentro da própria canção. The Fool on the Hill, Blue Jay Way e Flying também preservam a atmosfera daquele período em que os Beatles estavam testando os limites do que uma banda popular podia fazer.

Mas Magical Mystery Tour não é A Hard Day’s Night. Richard Lester havia transformado os Beatles em personagens cinematográficos. Aqui, os quatro estavam atrás da câmera e descobriram que fazer música e fazer cinema eram bichos diferentes.

O disco é outra história.

Na Inglaterra, Magical Mystery Tour foi lançado como um EP duplo de seis faixas. Nos Estados Unidos, a Capitol montou um LP acrescentando cinco singles daquele ano: Strawberry Fields Forever, Penny Lane, All You Need Is Love, Baby, You’re a Rich Man e Hello, Goodbye. Essa configuração americana acabou sendo adotada posteriormente no catálogo oficial dos Beatles.

E existe aí uma das melhores ironias da história: o filme que não sabia muito bem para onde estava indo acabou acompanhado por um disco extraordinário.

Strawberry Fields Forever e Penny Lane já justificariam boa parte da existência do álbum. Lennon transforma memória e desorientação em uma canção que parece não pertencer a lugar nenhum. Paul transforma uma rua de Liverpool em memória afetiva. I Am the Walrus leva a psicodelia até o absurdo. Blue Jay Way mostra George Harrison em seu registro mais nebuloso. The Fool on the Hill é Paul em estado de fábula.

E há All You Need Is Love.

Hoje, a frase pode soar ingênua. Em 1967, transmitida por satélite para o mundo inteiro, tinha outra dimensão. Guerra do Vietnã, Guerra Fria, protestos, contracultura. Os Beatles responderam com uma música que reduzia tudo a uma ideia quase infantil: amor.

O álbum não possui a unidade de Sgt. Pepper’s. É mais irregular, mais fragmentado e, justamente por isso, mais parecido com uma coleção de descobertas. Algumas são geniais. Outras não chegam a lugar algum.

O filme sofre do mesmo problema, só que sem a edição capaz de esconder seus tropeços.

Talvez essa seja sua importância. Magical Mystery Tour mostra os Beatles errando em público, quando já tinham poder suficiente para que quase ninguém lhes dissesse não. Eles exageraram, perderam a mão e confundiram liberdade com falta de limite.

Mas estavam tentando.

E talvez seja isso que ainda torne o filme fascinante. O ônibus não tem um destino muito convincente. O disco tem.

Os Beatles se perderam no caminho.

Ainda bem que levaram os instrumentos.

FONTE: cartacapital

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