Cerca de 1.000 pessoas foram detidas em toda a França no sábado (24), à medida que uma onda de protestos — em sua maioria pacíficos — voltava às ruas das principais cidades do país para expressar insatisfações econômicas, ecoando manifestações semelhantes por toda a Europa.
A forte presença policial enfrentou alguns confrontos violentos em Marselha, Bordeaux e na capital, mas as manifestações não foram marcadas pela mesma escala de violência observada no fim de semana anterior.
Neste domingo (25), uma partida da NFL entre o Pittsburgh Steelers e o New Orleans Saints foi realizada no Stade de France, nos arredores de Paris, mas um evento para torcedores na capital acabou sendo cancelado.
Os protestos em massa que surgiram pela Europa nas últimas semanas compartilham reivindicações comuns — como o aumento do custo de vida, a crise habitacional e a falta de verbas para a educação —, embora variem em escala e nas prioridades de cada país.
Na Espanha, dezenas de milhares de pessoas marcharam em Madri no sábado, exigindo a proteção das pensões públicas, informou a emissora nacional RTVE. Em Portugal, a polícia informou ter desmantelado acampamentos que haviam surgido no centro de Lisboa e do Porto, montados por pessoas que protestavam contra a crise habitacional no país.
A França tem registrado, de forma recorrente, alguns dos maiores protestos do continente. Segundo o Ministério do Interior, cerca de 110.000 dos mais de 410.000 manifestantes que foram às ruas no sábado estavam em Paris — um número praticamente igual ao registrado na capital uma semana antes.
Enquanto a grande maioria das manifestações nas cidades europeias tenha ocorrido de forma pacífica, houve focos de caos e confrontos com as autoridades. Em Barcelona, as autoridades relataram a prisão de 128 pessoas após episódios de tumultos e saques.
Cerca de 600 pessoas — que “não estavam seguindo nenhuma manifestação, não participavam de nenhum protesto e não defendiam nenhuma das causas ou direitos habituais” — reuniram-se no centro de Barcelona na noite de sábado, afirmou Núria Parlon, secretária de Assuntos Internos da Catalunha.
Imagens mostraram pequenos focos de incêndio — que foram posteriormente apagados — e vitrines de lojas quebradas. Um grupo de manifestantes chegou a entrar em uma unidade da rede Urban Outfitters após estilhaçar as vitrines da loja. Outro grupo foi filmado tentando invadir uma joalheria em La Rambla, uma das ruas comerciais mais populares de Barcelona. Quatorze policiais ficaram feridos, quatro deles gravemente, informou a polícia.
No total, 23 estabelecimentos comerciais foram vandalizados depois que vários grupos de pessoas encapuzadas se reuniram na região central da Plaza de Catalunya, por volta das 18h (horário local), segundo a polícia catalã.
Embora Parlon tenha enfatizado que esses indivíduos não faziam parte de nenhuma manifestação, o prefeito de Barcelona, Jaume Collboni, afirmou que o episódio “pode estar relacionado a algumas das convocações feitas em várias capitais europeias”.
Nas cidades italianas de Roma, Milão e Nápoles, lojas protegeram suas vitrines com tapumes após episódios de saques em manifestações anteriores; contudo, os protestos contra o aumento do custo de vida e a guerra foram menores do que o esperado.
As autoridades italianas reforçaram as forças de segurança em Milão com centenas de militares, que realizaram revistas e confiscaram tacos de beisebol, fogos de artifício e máscaras de diversos manifestantes. Vários manifestantes também foram levados para interrogatório e impedidos de participar das marchas planejadas, segundo a mídia local.
Em Turim, Bolonha e Florença, manifestantes entraram em confronto com as forças de segurança, que utilizaram cassetetes e gás lacrimogêneo para conter grupos que tentaram romper barreiras — a mídia local exibiu imagens de manifestantes feridos e sangrando.
Na capital albanesa, Tirana, manifestantes que exigiam mais apoio à educação e a renúncia do primeiro-ministro incendiaram lixeiras e arremessaram pedras e bombas de gás lacrimogêneo.
Em Bruxelas, na Bélgica, estudantes exibiram cartazes e montaram barricadas nas ruas. A polícia utilizou um caminhão com jato de água para dispersar a multidão, segundo a emissora pública do país, VRT.
Operação de segurança na França evita a repetição de episódios anteriores
Em Paris, a manifestação “ocorreu de forma pacífica, assim como a maioria das marchas de protesto por todo o país”, declarou o ministro do Interior, Laurent Nuñez, a jornalistas, acrescentando que quase mil pessoas foram detidas em todo o território nacional.
Nuñez afirmou que a polícia restringiu a movimentação dos manifestantes. “Eles foram impedidos de realizar protestos itinerantes não autorizados ou de se dirigir aos centros das cidades”, disse ele. “Em algumas cidades, houve danos ou saques a estabelecimentos comerciais, em número bastante reduzido”, acrescentou Nuñez, mas em uma escala muito menor do que a observada nos protestos de uma semana atrás.
O ministro disse que “não houve ataques direcionados” a prédios públicos, como prefeituras e delegacias de polícia, como ocorreu no fim de semana passado.
No entanto, as forças de segurança enfrentaram um “nível extremamente elevado de violência”, completou Nuñez, “com o lançamento constante de projéteis e o disparo de fogos de artifício do tipo morteiro”. Ele informou que as forças de segurança permaneceriam mobilizadas até tarde da noite de sábado (horário local) para prevenir saques.
Cerca de 70 mil policiais foram mobilizados em todo o país no sábado, informou o Ministério do Interior, enquanto as autoridades francesas lançavam uma enorme operação de segurança para a segunda rodada de protestos.
Unidades especiais, helicópteros, veículos blindados, cães policiais e canhões de água estavam de prontidão como parte da operação, após mais de meio milhão de pessoas terem ido às ruas no sábado anterior.
Depois de uma marcha pacífica por Paris, uma multidão de milhares de manifestantes entrou em confronto com a polícia, que utilizou gás lacrimogêneo e um canhão de água para contê-los, segundo uma equipe da CNN no local.
Os confrontos ocorreram na Porte de Vincennes, ponto final da marcha.
Em Marselha, a segunda maior cidade da França, manifestantes lançaram fogos de artifício (do tipo morteiro) contra a polícia durante confrontos nas ruas. Também houve relatos de saques em várias partes da cidade, incluindo uma joalheria com vitrines quebradas e um supermercado sendo saqueado, informou a BFMTV, afiliada francesa da CNN.
Imagens de Bordeaux, na costa atlântica francesa, mostraram o uso de gás lacrimogêneo contra manifestantes na famosa Place de la Bourse. Vídeos registraram manifestantes mascarados arremessando objetos contra a polícia, enquanto o gás lacrimogêneo se espalhava pela praça.
Em Nice, dezenas de ativistas de extrema-direita atacaram pessoas que protestavam pacificamente no sábado, relatou a BFMTV.
O líder do partido de esquerda “França Insubmissa”, Jean-Luc Mélenchon — que participou da marcha em Paris —, alertou que os protestos provavelmente continuarão caso o presidente francês, Emmanuel Macron, não responda às demandas dos manifestantes.
“É hora de as autoridades cederem; caso contrário, a única opção que lhes restará, em breve, será a porta de saída”, afirmou ele em uma publicação na rede social X.
Mais cedo, no sábado, Mélenchon declarou à BFMTV, diretamente da linha de frente da manifestação, que Macron corre o risco de enfrentar novas mobilizações em todo o país no dia 5 de novembro, a menos que “ceda agora”.
FONTE:CNN/BR



