Nos últimos dias, se avolumaram denúncias de usuários do Instagram sobre conteúdos removidos, perfis banidos, visualizações congeladas, alcance reduzido. Todas estas vinham de contas de esquerda, enquanto no caso de contas de direita o contrário era observado: números de visualizações estratosféricos, sugestão automática de perfis, pouca moderação. O caso chegou ao Tribunal Superior Eleitoral após uma denúncia formal da campanha do presidente Lula, que alega interferência da Meta – também dona do Facebook e do WhatsApp – no processo eleitoral brasileiro. Muitos ainda têm dúvida sobre essa acusação: por que a empresa arriscaria sua credibilidade fazendo isso? Outros sugerem que tal interferência seria “fácil” de comprovar: afinal, “é só” olhar os metadados da plataforma. Já para quem conhece essas empresas e a conjuntura em que se encontram, o surpreendente seria se a Meta não interviesse nas eleições brasileiras.
Em primeiro lugar, isso já havia sido anunciado. Logo após a eleição de Trump para um segundo mandato, o dono da Meta, Mark Zuckerberg, anunciou uma “nova era” para a empresa que refletisse o novo espírito do tempo. Hoje, a convergência política de praticamente todas as grandes plataformas com a extrema-direita norte-americana é explícita, e isso se expressa, inclusive, na radicalização pessoal dos seus fundadores, como Elon Musk e Zuckerberg. Esses homens não veem valor na democracia: conduzem suas empresas de forma verticalizada e têm sobre elas a última palavra. Zuckerberg, por exemplo, tem uma peculiar obsessão “cesarista” com a figura do imperador romano: corta seu cabelo nesses estilos, passou a lua de mel em Roma, nomeou suas três filhas de Maxima, Aurelia e Augusta.
Em segundo lugar, a Meta faria isso porque ela pode. Plataformas são “caixas-pretas” sob soberania privada de empresas estrangeiras e seus dados e procedimentos são, na prática, inacessíveis e inauditáveis ao Poder Público. Ainda que o TSE não fosse liderado por dois ministros bolsonaristas, a Justiça Eleitoral brasileira pode fazer muito pouco, pois não dispõe de mecanismos para identificar, quiçá punir, uma eventual interferência oculta no nível dos algoritmos.
Finalmente, a Meta e outras big techs fariam isso por uma questão de sobrevivência: é existencial para elas. As plataformas hoje dominantes nos EUA se consolidaram após a bolha dotcom de 2001, expandindo seus domínios de forma praticamente ilimitada: sem serem reguladas, pagando pouquíssimos impostos, engajando em práticas anticoncorrenciais, recebendo de mão beijada mercados consumidores bilionários no Sul Global, como Índia e Brasil, por meio de pacotes de dados grátis para seus aplicativos – ferindo, inclusive, o princípio da neutralidade de rede previsto no Marco Civil da Internet.
Isso significa que essas empresas não conseguem sobreviver de outra forma e hoje, após quase 30 anos, elas se deparam com obstáculos inéditos a esse modelo de crescimento. Estes são, por um lado, materiais: a perspectiva de escassez de recursos naturais na medida em que a indústria acelera na corrida pelas IAs. Por outro lado, pela primeira vez na sua história, elas se veem diante de um concorrente à altura: a China. Esses fundadores e CEOs se veem, portanto, sob ameaça existencial, e sua reação a essa conjuntura é a radicalização. Eles têm pouco a perder e muito a ganhar redefinindo o jogo político na América Latina.
A solução preconizada por Trump para salvar o agonizante império global norte-americano diante da ascensão tecnológica e comercial chinesa também resolve o problema das big techs: reposicionar os EUA como hegemon hemisférico voltado às Américas, desde a Groenlândia até as Ilhas Malvinas. Trump e seus aliados poderiam, assim, sobreviver expandindo seu espaço vital – ou Lebensraum, termo usado pelo regime nazifascista alemão para justificar a invasão da Polônia, Áustria e outros territórios durante a Segunda Guerra Mundial.
Com o controle político sobre esses novos territórios, poderão extrair deles tudo o que precisam para dar sobrevida a um modelo em vias de esgotamento: terra, água, minério, energia, trabalho. Os data centers e a extração de terras-raras são uma metonímia para esse parasitismo que nos vê, como todo sujeito colonial, como recursos a serem explorados sem terem que se responsabilizar pelas externalidades produzidas. Hoje, restam de pé poucas barreiras para consumar esse plano: a conquista do Brasil promete ser o ponto de virada de que tanto precisam e para o qual a intervenção algorítmica numa eleição é um preço mínimo a pagar. •
Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Eleição na mira da Meta’
FONTE: cartacapital



