Diz a lenda que, em um naufrágio na foz do rio Mekong, por volta de 1558, Camões teve segundos para escolher entre salvar sua amada, a jovem chinesa Tin-Nam-Men, também conhecida como Dinamene, ou o manuscrito de Os Lusíadas. Entre a musa e a obra, dizem os autos, ganhou a segunda: com os versos erguidos acima da água, ele nadou com um braço só para chegar até a margem e deixou que a amante se afogasse. Depois, lamentou (em soneto, claro): “Alma minha gentil, que te partiste”. Ninguém sabe se a história foi mesmo assim, mas fato é que essa possível primeira grande fofoca literária toca na suspeita nada ética de que, quando um escritor precisa escolher entre alguém e sua obra, ele vai escolher a obra.
Prova disso é que, quase cinco séculos depois, o enredo é o mesmo. Com lançamento no Brasil previsto para o início de 2027, o romance A Vida de M, da aclamada escritora Rachel Cusk, fez sua estreia cercado de rumores de que “M” seria, na verdade, a atriz Natalie Portman. Há fundamento: admiradora declarada de Cusk, Portman elegeu dois de seus romances para o clube de leitura que mantém no Instagram, chegou a entrevistá-la em público e a apresentou como uma de suas escritoras favoritas. No papel, as semelhanças se acumulam. “M” é uma atriz reconhecida mundialmente desde a infância, garota-propaganda de uma grife de luxo e que, ao longo do romance, tema vida narrada por um amigo escritor – até se sentir exposta e traída pelo projeto.
O burburinho não foi confirmado, mas a atriz tem se esquivado do assunto. Já Cusk não desmente e deixa que a insinuação venda mais livros. Em entrevista ao The New York Times, ela insiste que saber se “M” é baseada em uma celebridade real “não é exatamente a questão”, detalha. “É uma obra de ficção, e acho que, ao explicar como algo é concebido – porque é sempre criado a partir de uma mistura completa de coisas reais, esquemas inventados e material pessoal –, tudo acaba se desfazendo.”
Para Flavio Moura, editor brasileiro de Cusk e sócio-fundador da Todavia, “o ponto de interesse está na intenção real da autora em pensar o modo de vida de uma celebridade global. Ela sempre soube transitar entre realidade e ficção, mas aqui o mérito está em transformar essa existência refém de uma imagem em reflexão.”
É como pensa também a escritora Tati Bernardi, que costuma explorar nuances da sua vida pessoal em sua obra. “As pessoas têm direito à sua própria história. Nos meus livros, tomo cuidado para juntar mais de uma pessoa em um personagem só. Protejo várias. Os textos autobiográficos se conectam com o leitor. Ainda que isso não seja uma estratégia de venda, obviamente, eu gosto que o livro venda muito”, diz.
Mas, afinal, por que a intimidade dos outros prende tanto a nossa atenção? “Saber da vida íntima de alguém é uma forma de voyeurismo: você entra onde não devia e assiste a uma cena para a qual não foi convidado”, diz a psicanalista Bárbara Barbosa, doutoranda em psicologia clínica pela USP. Quando falamos de celebridades, o buraco é mais profundo. Mesmo sem querer, elas vendem promessas – beleza, casamentos perfeitos, casas deslumbrantes. Descobrir suas faltas, segundo Bárbara, aproxima: “Há algo em comum entre nós”, pensa o leitor.
Vale lembrar que ninguém transforma uma dor privada em pública à toa. “Publicar é endereçar, seja pedindo acolhimento, reconhecimento, seja se vingando”, explica Bárbara. Um caso recente que atesta isso é Estranhos, as memórias de casamento de Belle Burden, neta da lendária editora Babe Paley. Publicado em janeiro e estreando em primeiro lugar na lista do The New York Times, o livro narra o divórcio de um executivo que, segundo a autora, a teria deixado à beira da ruína. Em maio, uma investigação da revista The New Yorker teve acesso a documentos que mostraram outra história: Burden dispunha de dezenas de milhões em fundos familiares durante a separação. A crítica se dividiu entre acusá-la de exagerar e defendê-la – afinal, obras de não ficção e memórias escritas por mulheres frequentemente enfrentam um escrutínio factual bem mais severo.
A exemplo de Ioga, relato do francês Emmanuel Carrère, publicado em 2020, em que sua ex-mulher, a jornalista Hélène Devynck, aparece à revelia. No divórcio, ela havia obtido por contrato o direito de vetar menções a si nos livros do ex-marido. Carrère cortou trechos antes de publicar, mas Devynck foi à imprensa acusá-lo de mentir e distorcer episódios para costurar a narrativa. O caso incendiou o meio literário francês, rendeu debates sobre os limites da não ficção e parou por aí. Não houve clubes de leitura obcecados nem a febre que cercou o livro de Burden e, agora, o de Cusk – poucos fora da França se lembram do episódio. “É comum uma literatura feminina sobre dores relacionadas a traição, violência e humilhação fazer sucesso”, diz Bárbara. “A controvérsia atrai e o ser humano gosta de treta.”
Às vezes, porém, o retratado revida. Em 2015, a atriz Scarlett Johansson processou o escritor Grégoire Delacourt por uma personagem parecida demais com ela em La Première Chose Qu’on Regarde. A justiça francesa considerou o livro difamatório e concedeu uma indenização simbólica, sem barrar a publicação. Fica então a pergunta: “A quem pertence uma história vivida a dois?”. Para Bárbara, a autoria nunca é individual, já que experiências são compartilhadas, e todo escritor deveria ter carta branca. A questão é o que cada um faz com a sua. Camões salvou o poema. Mas quem somos nós para julgar, não é mesmo?
FONTE:/vogue/BR



