O livro mais triste do mundo e a necessidade de cultivar o desencanto

O livro mais triste do mundo é A Desumanização, do Valter Hugo Mãe. O segundo é Trilogia, do Jon Fosse. São duas de minhas obras favoritas, por dezenas de motivos, também pelo fato de serem tristes.

Quando tinha 20 anos, queria ser feliz o tempo todo, beliscar o impossível, e convivia com pensamentos recorrentes sobre o porquê de gostar de coisas tristes, músicas, livros, filmes, pessoas, olhares. Não sabia se era de dentro para fora (consumir como um reflexo de meus sentimentos) ou o contrário (assimilação me tornando melancólico).

Aqui não é lugar para teorias e estudos psicológicos, nem tenho base para entrar em algo assim. Três décadas depois, meu veredito pessoal é: despir o mundo da tristeza é enxergar com miopia, é perder a chance de se envolver com o mais profundo da existência, é deixar de ser humano.

Porque existe um senso equivocado de que viver bem é exalar felicidade. Ninguém é assim nem será. Alegria é delícia, e passa. O Sol afunda no horizonte e depois há a noite, todos os dias a efemeridade das cores dá lugar ao breu. Tristeza também some, mas não é volátil como a felicidade. Deixa marcas profundas, carimba lições na testa. Não há vida sem desencanto e é preciso vive-lo para não estar em fuga constante.

A literatura é a arte mais triste do mundo. Acredito muito pouco que um livro sirva para fazer rir. Ele existe para pensar, aprofundar, questionar, encontrar pontos inacessíveis dentro de cada um, locais que passam, irremediavelmente, por desconforto, dor e tristeza. A música não é assim, faz-se canções apenas de sorrisos. O cinema, idem. O teatro. A dança. As artes plásticas. A literatura é triste, tristíssima.

Não confunda: estar triste é aprender a morar no mundo. É entender que deus, se existe, carrega em si um tanto de demônio. Estar triste é se afastar da idiotice. É aprender o valor de chorar. É se entregar ao abismo inevitável.

Coloque o desencanto no bolso e leve-o para passear no parque, sentado em um banco, olhando o pôr do sol até o último ponto de luz sumir. Na tentativa de entender as coisas, um pouco, bem pouco, ou nada, aprende-se. Como a pequena Halla de Valter Hugo Mãe vivenciando a tristeza profunda pela morte da irmã. Entendo bem pouco, ou nada. Convivemos com a desumanização todos os dias e não podemos fingir nem fugir. A literatura vem e nos salva.

FONTE: cartacapital

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