Pertencimento é algo que se estabeleceu na moda e que representa um mercado inovador, desde as redes populares às luxo. Marcas brasileiras têm se destacado por validar a estética da brasilidade e a concepção da sustentabilidade, como tem acontecido na São Paulo Fashion Week (SPFW N16). Há quem pense que isso se deve ao comportamento do mercado contemporâneo, baseado na obrigatoriedade de novas práticas, mas acredito — e os dados nos apontam — que repensar o consumo também passa pelo desejo.
Incluir no armário uma peça que já passou por outras pessoas é algo que ainda não faz parte naturalmente do perfil de compra dos brasileiros. Esse comportamento é construído a partir da ideia de colaboração com práticas de mitigação dos efeitos climáticos e também da possibilidade de pagar um menor preço. Mas o que temos percebido também é que, quando se materializa uma ideia de custo-benefício e identidade, há a combinação perfeita para fazer girar a moda circular.
Cyntia Kasai é gerente sênior de Comunicação e ASG da C&A e discute o comportamento do consumidor que se vê diante da moda circular brasileira e internacional. Trata-se de um modelo de compra que cresce e exige análise de mercado, influência digital e normativa.
“No Brasil, o consumidor está aberto, mas ainda não convencido. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), de 2026, mostra que mais da metade dos brasileiros já compra produtos reciclados, mas 61% ainda preferem produtos novos, e apenas 13% dizem conhecer bem o conceito de economia circular. Esse dado não revela resistência. Revela uma lacuna de percepção. Para boa parte das pessoas, a roupa reciclada ou de segunda mão ainda carrega a ideia de algo inferior”, contextualiza Kasai.
A confiança é um dos principais fatores que determinam o interesse de compra de um produto circular. Ainda há muitos desafios culturais e comportamentais que estão relacionados ao modelo de consumo predominante na sociedade, baseado em peças novas e exclusivas. É importante ressaltar que quem compra moda circular considera saber de onde a peça veio, do que é feita e quanto vai durar. Não por acaso, o Passaporte Digital do Produto (DPP) ganha espaço na regulação europeia ao ampliar a transparência sobre a origem, a composição e o ciclo de vida dos produtos.
“Os dados internacionais mostram que a segunda mão deixou de ser alternativa e passou a ser porta de entrada. Relatório da Boston Consulting Group (BCG) com a Vestiaire Collective, publicado em outubro de 2025, projeta que o mercado global de moda e luxo de segunda mão pode chegar a US$ 360 bilhões em 2030, crescendo cerca de três vezes mais rápido que o mercado de primeira mão. Entre os usuários da plataforma ouvidos no estudo, peças de revenda já representam 28% do guarda-roupa, e 40% quando se fala de bolsas”, comenta a especialista em ASG.
Temos um desafio pela frente, e ele não passa apenas pela regulamentação. Também será necessário transformar informação em valor percebido, aproximando a sustentabilidade das escolhas cotidianas e incentivando um consumo orientado pela qualidade, pela durabilidade e pela responsabilidade ambiental. Considerando que para atrair o interesse dos consumidores da moda, será preciso gerar proximidade e confiança.
“Segundo a McKinsey, no The State of Fashion 2026, 85% dos consumidores nos Estados Unidos, 77% na China e 66% no Reino Unido usam a revenda para explorar marcas aspiracionais antes de comprá-las. Para as novas gerações, o usado é também uma forma de pertencer. Segundo a BCG, oito em cada dez consumidores da Geração Z descobrem marcas pela revenda. E o relatório anual da ThredUp aponta que a Geração Z e os Millennials devem responder por 71% do crescimento do setor até 2030, com quase metade dos compradores encontrando sua próxima peça nas redes sociais e com criadores de conteúdo”, pontua.
É necessário desenvolver estratégias a partir das demandas e percepções dos diferentes agentes de mercado, do varejo à indústria, dos recicladores às cooperativas, das plataformas de revenda aos criadores de conteúdo e ao poder público. Para que essas iniciativas gerem resultados consistentes, é fundamental articular a infraestrutura física e digital, conectando os diferentes atores em um ecossistema integrado, capaz de impulsionar a inovação, a circularidade e o desenvolvimento sustentável.
“A favorabilidade à moda circular não se constrói com uma campanha. Ela se constrói quando o consumidor encontra a peça circular no lugar onde já compra, pelo preço que pode pagar e com a qualidade que espera. Aí ela deixa de ser exceção e vira hábito. O que mais me chama atenção, porém, está na motivação. Quase 80% citam o preço. Cerca de 55% concordam fortemente que buscam variedade e exclusividade, e metade fala do prazer do garimpo. A sustentabilidade aparece como forte motivação para cerca de 40%. Ou seja: o argumento ambiental importa, mas raramente decide sozinho”, informa Cyntia.
Estamos diante de elementos que se complementam por seu potencial de transformação e pela própria dinâmica da sociedade, que busca não apenas consumir, mas também pertencer. Nesse contexto, os produtos deixam de representar apenas escolhas individuais e passam a expressar valores, identidades e formas de se relacionar com o mundo.
“Em 2025, a Chanel criou a Nevold, divisão dedicada a reciclar e reaproveitar têxteis e couro, estruturada em parceria com empresas de triagem, fiação e reaproveitamento de materiais, além de universidades. E o reparo deixou de ser exceção. A pesquisa divulgada pela Statista em 2025 com executivos do setor e atualizada em junho de 2026 indica que mais de dois terços das empresas de luxo já oferecem serviços de reparo e restauração, e mais da metade mantém programas próprios de revenda certificada. Casas como Gucci e Burberry estruturaram serviços próprios de reparo, e a Chanel garante por cinco anos o reparo de bolsas e carteiras. O arquivo, o vintage e a peça icônica revendida viraram ativos de marca”, afirma.
Construir uma relação de confiança capaz de influenciar decisões de compra e estimular práticas responsáveis é uma meta que passa pelo coletivo. A indústria da moda tem relevância significativa tanto no desenvolvimento econômico quanto na mitigação das mudanças climáticas. Para que transparência, qualidade e propósito se tornem atributos percebidos, é necessário que a sustentabilidade integre não apenas a competitividade dos negócios, mas também a satisfação dos consumidores em perceber que fazem parte da inovação contemporânea no consumo e na construção de identidades.
“Se há algo que aprendi observando o comportamento do consumidor, é que a mudança acontece quando a escolha certa se torna também a escolha mais fácil e mais atraente. A moda tem um poder que poucos setores têm: o de criar desejo. Usar esse poder a favor da circularidade é, talvez, a nossa maior responsabilidade e a nossa maior oportunidade. Isso significa falar menos de sacrifício e mais de valor. Mostrar a história da peça, a qualidade que permite que ela dure e a inteligência de uma escolha que faz sentido para o bolso e para o planeta. Significa também levar a circularidade para onde a maioria das pessoas está, e não apenas para vitrines exclusivas”, enfatiza Cyntia Kasai.
Como pontuou Cyntia, transformar a circularidade em desejo para a maioria será um desafio. E, quando isso acontecer, a sustentabilidade deixará de ser um discurso sobre o que precisamos abrir mão e passará a ser uma conversa sobre o que podemos transformar.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue
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FONTE:/vogue/BR



