Sofia Coppola fala sobre “Maria Antonieta”, a reinvenção dos dramas de época e as críticas negativas: “Todas escritas por homens”

Sofia Coppola é exatamente como se poderia imaginar. Instalada em uma confortável suíte no hotel St Clement, em Londres, enquanto uma garoa persistente encobre a vista do Tâmisa logo abaixo, ela está impecável: camisa rosa bem passada, jeans azul-claro da Levi’s, sapatilhas Chanel rosa e pretas, argolas douradas, unhas pintadas em um tom de rosa brilhante e um relógio Cartier Tank no pulso. É o uniforme eterno da diretora nova-iorquina, vencedora do Oscar, que transformou o cinema com filmes como As Virgens Suicidas, Encontros e Desencontros e Um Lugar Qualquer.

Aos 55 anos, a cineasta visionária está aqui para falar sobre os 20 anos de um de seus filmes mais queridos: Maria Antonieta, uma extravagância suntuosa ambientada em Versalhes, que escalou uma jovem Kirsten Dunst para interpretar a condenada rainha francesa e Jason Schwartzman para viver seu marido, Luís XVI, completamente perdido em seu papel. Inicialmente controverso, o drama de época se transformou em um clássico cult que ajudou a redefinir o gênero. Agora, o filme foi restaurado e está prestes a voltar às telas. Mas há outra produção que os admiradores do original também deveriam procurar: Making Marie Antoinette, um documentário intimista, com duração de longa-metragem, que revela os bastidores da produção e foi realizado pela própria mãe da diretora, a documentarista Eleanor Coppola.

Eleanor registrou cerca de 80 horas de imagens ao longo de 57 dias de filmagem na França, em 2005. Durante a pandemia, voltou ao material e o transformou em um retrato fascinante e franco da filha e de seu projeto ambicioso, de proporções vertiginosas. O documentário mostra desde o primeiro encontro de Eleanor com Thomas Mars, vocalista da banda Phoenix, então o novo namorado de Sofia e hoje seu marido há 15 anos, até Asia Argento, caracterizada como Madame du Barry, lendo a palma da mão de todos os colegas de elenco com uma precisão assustadora. Também acompanhamos Sofia defendendo suas decisões criativas diante de uma equipe formada exclusivamente por homens que discordavam dela.

Há ainda momentos em que Sofia, exausta pela falta de sono, perde a paciência com as perguntas incessantes da mãe. Em trechos de seus diários pessoais, Eleanor se pergunta se, em vez de documentar a própria família produzindo arte, não poderia ter criado mais obras por conta própria. Eleanor trabalhou em Making Marie Antoinette até morrer, em 2024, aos 87 anos. Depois disso, Sofia assumiu a missão de concluir e lançar o filme. Após exibições no Festival de Cinema de Londres, o documentário chega aos cinemas em 23 de outubro e entra no catálogo da Mubi em 6 de novembro.

Antes da estreia, Sofia conversou conosco com a franqueza habitual sobre as críticas duras recebidas por Maria Antonieta quando foi lançado, o constrangimento de rever a si mesma mais jovem, o desejo de que Kirsten Dunst finalmente receba o reconhecimento merecido por sua atuação marcante e seus sentimentos atuais como “mãe de mulheres jovens que estão criando coisas”.

É curioso lembrar que Maria Antonieta dividiu tanto as opiniões quando foi lançado, porque hoje é um clássico. Li que você guardou uma caixa com recortes das primeiras críticas.

Acho que os mais jovens não sabem disso, mas o filme não foi bem recebido quando estreou. Por isso, significa tanto para mim ver uma nova geração se identificando com ele.

Você se lembra de quando essa percepção começou a mudar?

No início, as reações foram bastante divididas, mas acho que houve mais manifestações negativas. As críticas ruins sempre parecem falar mais alto do que as boas, mas as opiniões estavam realmente divididas. Algumas pessoas defenderam o filme, o que foi ótimo, enquanto outras o detestaram. Fiquei surpresa com o número de pessoas que se sentiram ofendidas por ele. Pensei que, no mínimo, havia um esforço enorme na sua realização. Mesmo que não fosse algo de que você gostasse, dava para reconhecer isso.

Acho que foi há uns dez anos, uma década depois do lançamento, que começaram a me contar que mães e filhas estavam assistindo ao filme juntas. E eu pensei: “Ah!”. Fiquei muito emocionada ao perceber que ele estava ganhando uma segunda vida. Agora, 20 anos depois, jamais imaginaria que as pessoas ainda estariam assistindo a ele. É muito gratificante.

No set de “Maria Antonieta” — Foto: Divulgação

O documentário surgiu porque você e sua mãe estavam na mesma bolha durante a pandemia?

Um pouco das imagens que ela fez nos bastidores de Maria Antonieta foi usado como material extra de um DVD, mas ela sempre ficou frustrada porque o resultado não tinha sido montado da maneira que imaginava. Ela estava muito concentrada na perfeição e na beleza dos figurinos, nos detalhes da comida e em todas aquelas coisas que acabaram não sendo aproveitadas. O material ficou guardado, mas eu não fazia ideia de que ela havia filmado 80 horas. Durante a pandemia, estávamos todos em casa, em Napa, onde cresci, e tínhamos tempo disponível. Minha mãe tirou as imagens da gaveta e disse: “Vamos assistir. Vamos conversar sobre como podemos montar isso”.

Foi a primeira vez que vi o material. Foi muito louco rever tudo aquilo, me ver como uma diretora jovem e reencontrar Kirsten [Dunst] e Jason [Schwartzman]. Muitas lembranças voltaram. Minha mãe estava muito animada para trabalhar no projeto. Começamos a conversar sobre ele e decidimos nos concentrar em como o filme havia sido feito.

No fim da vida, em 2024, ela queria muito que o documentário fosse concluído. Senti que minha missão era terminar o filme por ela. Fiquei muito feliz por ter encontrado um montador que pudesse me ajudar, porque não consigo ter distanciamento em relação ao material e é muito difícil me ver naquelas imagens. Não queria aparecer demais, mas dependi bastante dele para entender o que outras pessoas gostariam de assistir.

Minha mãe gostava de mostrar a verdade sobre como as coisas são feitas, os desafios, as inseguranças e todos os outros aspectos do processo. Queria que o documentário refletisse a maneira como ela gostaria de realizá-lo. Espero que quem goste de Maria Antonieta, assim como jovens cineastas, encontre algo interessante ao acompanhar o processo de criação do filme.

Eleanor Coppola no set de “Maria Antonieta” — Foto: Divulgação

Foi emocionante se ver como uma cineasta mais jovem?

O que me emocionou e tocou profundamente foi me enxergar pelos olhos da minha mãe, ter tido a oportunidade de passar aquele tempo com ela e ouvir suas reflexões registradas no diário. Também foi especial poder juntar esses pensamentos às imagens. Lembro que ela estava no set, mas, naturalmente, não sabia o que se passava em sua cabeça naquela época. Ver tudo aquilo dentro de seu contexto foi muito comovente.

Quando você leu aquelas anotações do diário pela primeira vez?

Minha mãe publicou dois livros em vida: Notes: On the Making of Apocalypse Now, em 1995, e Notes on a Life, em 2008. Depois, veio seu terceiro livro, Two of Me: Notes of Living and Leaving, um livro de memórias publicado postumamente, em 2025. Os livros dela são sempre construídos a partir de anotações de diário, pequenos registros de sua vida. Ela queria que esse terceiro, seu último livro, fosse publicado. Havia duas coisas que desejava realizar no fim da vida: publicar o livro e concluir o documentário. Conseguimos publicar o livro, que continha anotações feitas durante as filmagens de Maria Antonieta. Encontramos os trechos que correspondiam às imagens, e houve muitas surpresas.

Quais foram as maiores surpresas?

Lembro especialmente de ver as imagens do primeiro encontro dela com meu marido, Thomas Mars. Foi uma surpresa. Pensei: “Meu Deus, não acredito que isso foi filmado”. Além disso, foi muito marcante ouvir a perspectiva dela. Eu a conhecia e sabia que ela sempre teve dificuldades para conciliar a maternidade com a vida criativa. Ela achava que sua geração havia enfrentado mais obstáculos do que a minha. Ficava feliz por ver que minha geração tinha mais liberdade para conciliar as duas coisas e estava muito contente com isso. Ouvir como ela lidava com seus próprios conflitos como artista e chegava à conclusão de que o documentário era uma de suas formas de expressão criativa foi muito significativo. Não sei, senti que havia muitas camadas naquele material. E agora eu também sou mãe de mulheres jovens que estão criando coisas. Ver aquelas imagens pelo ponto de vista de uma mãe me deu uma perspectiva completamente nova. É muito comovente ouvi-la refletir sobre o tempo que passou observando a família produzir arte e se perguntar se não deveria estar criando suas próprias obras. E ela estava criando.

Sofia Coppola no set do baile de máscaras parisiense de “Maria Antonieta” — Foto: Divulgação

Estava mesmo. Quando você se vê dirigindo no passado, sente que é uma cineasta muito diferente hoje?

Sim. Para mim, é constrangedor me assistir. Fico com vergonha de mim mesma. Sinto que era uma diretora iniciante, porque não tinha tanta segurança para me impor. Hoje, depois de 20 anos, me sinto mais confortável para defender minhas posições, mas, em alguns aspectos, continuo igual. A maneira como converso com os atores e meu comportamento no set são bastante parecidos.

Algumas das minhas cenas favoritas são aquelas em que você dirige Kirsten. Você diz algo como: “Sabe quando as meninas se encontram em festas e começam a gritar?”. Existe uma linguagem compartilhada entre vocês.

Estamos totalmente em sintonia nesse sentido. É muito engraçado.

Houve alguma coisa que você teve vontade de cortar da montagem ou que acabou ficando de fora?

Não consigo pensar em nada que tenhamos deixado de fora. Há uma cena em que estou irritada com minha mãe. Pensei que não gostaria exatamente de compartilhar aquilo, mas acho importante mostrar que momentos assim também existem. Minha mãe gostava que as coisas fossem tão reais e íntimas quanto possível. Então pensei: “Tudo bem, é isso”. Eu falava com ela de uma maneira como jamais falaria com alguém de uma equipe comum de bastidores. Se consigo deixar meu próprio constrangimento de lado, acho que é uma perspectiva única ver uma cineasta sendo tão honesta.

É quando ela faz perguntas e você responde que quer chegar ao set descansada, sem ter acabado de dar uma entrevista coletiva no trailer com sua mãe?

Sim. É um pouco constrangedor. Eu estava perdendo a paciência com ela. Mas é real.

Kirsten Dunst no set de “Maria Antonieta” — Foto: Divulgação

Também adorei a cena em que Asia Argento lê sua mão no set e diz que você terá dois filhos, o que acabou acontecendo.

Foi muito divertido rever aquilo. Ela também disse a Kirsten que ela teria dois filhos, e isso aconteceu. Para Jason, disse: “Vejo gêmeos na sua família”. Desde então, o irmão dele teve gêmeos. Asia tem algo de bruxa, é muito certeira. Vocês deveriam convidá-la para escrever uma coluna na Vogue.

Deveríamos. Outro momento ótimo é quando a equipe sugere que você filme a cena do ponto de vista do conde Fersen, e você precisa explicar que a história não é sobre ele, mas sobre o olhar de Maria Antonieta. É impressionante ver você defender sua posição.

Minha mãe registrou tudo isso. Lembro que, na época, tinha muita dificuldade para explicar o que queria dizer. A ideia de uma perspectiva feminina não era algo óbvio para as pessoas. Hoje, você nem pensa duas vezes a respeito, mas, há 20 anos, eu simplesmente não conseguia acreditar que aquilo fosse um conceito tão estranho para os outros. Acho que o filme mostra muito bem como eu lutava para defender esse ponto de vista.

É difícil fazer isso. Olhando para trás, do que você mais se orgulha em Maria Antonieta?

Nossa, sinto que tudo naquele filme foi… Tenho muito orgulho do resultado visual e de ter conseguido trabalhar com Milena [Canonero], que criou tantos figurinos originais. Em geral, os filmes de época alugam figurinos, e é por isso que este tem uma aparência tão particular. Ela e sua equipe conseguiram construir aquele universo. Milena é uma lenda, seu trabalho é extraordinário, e fiquei muito feliz por poder mostrar tudo o que ela fez. Também me impressiona a maneira como as equipes de cinema se organizam e como todos os elementos se coordenam dentro de um enquadramento. Não sei como isso acontece. Assisti à versão restaurada de Maria Antonieta e percebi algumas coisas que não faria hoje ou que faria de outra maneira. Ainda assim, consigo apreciar o filme pelo que ele é e reconhecer todo o esforço envolvido. E adoro ver Kirsten nele.

É engraçado ouvir você dizer isso, porque considero o filme praticamente perfeito.

Que bom ouvir isso! Mas, claro, sempre vemos coisas que nos fazem pensar… Assistir ao documentário da minha mãe me traz de volta o estresse de cada dia, a pressão para fazer tudo acontecer. Foi divertido, porém, assistir recentemente à versão restaurada na tela grande com Kirsten e apreciar novamente o visual e a atuação dela.

Nos bastidores de “Maria Antonieta” — Foto: Divulgação

É uma atuação maravilhosa. Como foi voltar a Versalhes recentemente com Kirsten e Jason e estar juntos naquele lugar outra vez?

Foi muito emocionante. Kirsten recebeu muitas críticas negativas por causa do filme quando ele foi lançado. As pessoas não gostaram da atuação dela e foram muito duras. Entendo que todo mundo fala com um sotaque diferente e que isso pode soar estranho, mas acho que é preciso aceitar a proposta e deixar esse detalhe de lado. Naquela época, as pessoas implicavam demais com essas particularidades. Fico feliz que hoje o público seja mais aberto. Foi muito bom assistir ao filme com ela e vê-la sentir o reconhecimento das pessoas. Na época, quando criticaram sua atuação, ela ficou mal, como se tivesse me decepcionado. Eu também me senti mal por tê-la colocado naquela posição, sujeita a tantas críticas. Por isso, é muito bom ver que o filme está ganhando uma nova vida.

Quando procurava material para a exposição em homenagem aos 20 anos do filme, no Petit Trianon, em Versalhes, encontrei todas aquelas críticas negativas e fui lê-las. As manchetes eram terríveis, mas muito engraçadas. Havia 20 ou 30 críticas, e todas tinham sido escritas por homens. Pensei em como nossa cultura mudou. Naquela época, o discurso cultural era determinado por um único ponto de vista. Hoje, há tantas mulheres jovens participando da cultura. Acompanhei essa transformação de perto, e acho que é por isso que o filme continua vivo. Isso é impressionante e muito significativo para mim.

É bonito ouvir isso. As pessoas comentam com você sobre o impacto de Maria Antonieta no gênero dos dramas de época? Acho que as produções contemporâneas desse tipo devem muito ao filme.

Percebo isso em Bridgerton e em outras produções. O gênero praticamente se tornou um subgênero próprio, o que é ótimo, considerando que, na época, as pessoas não estavam abertas à proposta.

No que você está trabalhando agora?

Passei o último ano trabalhando neste filme. O processo levou muito mais tempo e foi mais difícil do que eu esperava. Estou muito feliz por finalmente lançá-lo e depois voltar a escrever. Acabei de trabalhar em dois documentários, este e Marc by Sofia, e estou muito animada para voltar à escrita e imaginar a criação de um novo universo.

Pensando em universos, épocas e cenários diferentes, há algo que você ainda não fez e gostaria de experimentar?

Seria interessante trabalhar em algum gênero que ainda não explorei, mas não existe nada específico pelo qual eu esteja obcecada.

Você tinha 34 anos quando fez Maria Antonieta. Em determinado momento do documentário, comenta que não gostaria de repetir algumas experiências, como fazer um filme de época ou trabalhar com um elenco numeroso. Se pudesse dar um conselho à Sofia de 34 anos, o que diria?

Acho que, logo depois de terminar alguma coisa, você fica exausta. É como ter um bebê, ou algo assim: você simplesmente não aguenta mais. Quando terminei Maria Antonieta, pensei: “Não quero fazer outro filme nunca mais”. Depois de uma pausa, porém, voltei a sentir entusiasmo. Acho que faz parte do processo: você chega ao esgotamento, descansa e depois recomeça. Após esse intervalo, conheci Harris Savides, o diretor de fotografia, e decidimos: “Vamos fazer um filme da maneira mais simples possível”. Foi assim que fizemos Um Lugar Qualquer. Gostei muito daquele processo porque era como voltar ao básico, mas também fico feliz por ter vivido a experiência de fazer algo maior. Foi muito estressante, mas hoje valorizo tudo aquilo. Fazer Maria Antonieta foi como correr uma maratona maluca, mas foi uma experiência extraordinária.

FONTE:/vogue/BR

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