Cresci vendo mulheres cortarem o cabelo na altura dos ombros quando chegam a uma certa idade (leia-se 50 e poucos anos). Até que eu cheguei a essa certa idade — e sem a menor intenção, ou desejo, de dizer adeus aos meus fios compridos. Nem o cabelo ficou livre do etarismo.
Seja por rebeldia, provocação ou simplesmente porque gostam e ponto, muitas mulheres começaram a quebrar essa regra nonsense de que cabelos médios e curtos seriam mais adequados à maturidade. Nos tapetes vermelhos, celebridades estão desfilando com fios longos e longuíssimos, lisos ou ondulados, naturais ou com extensão, em tons que vão do castanho intenso ao loiro, passando pelo grisalho assumido.
Demi Moore, com seu cabelo preto que chega à cintura, é um dos exemplos mais emblemáticos. Sarah Jessica Parker também mantém o comprimento, com uma mistura de tons claros e grisalhos, enquanto Andie MacDowell fez dos cachos prateados uma de suas assinaturas. São escolhas diferentes, embora todas com a mesma mensagem: o cabelo é meu e uso como quiser.
Mas existe, sim, um desafio para manter o comprimento dos fios na maturidade. É preciso preservar a densidade, evitar a quebra e garantir que os fios continuem saudáveis à medida que os anos passam.
O que muda no cabelo maduro
Segundo a médica Luciana Passoni, referência em ciências capilares, o primeiro ponto é entender que existe um limite de comprimento determinado pela genética. Ele está relacionado à duração da fase anágena, período em que o fio cresce ativamente. Quando essa fase termina, o cabelo entra em outras etapas do ciclo capilar e acaba caindo, dando lugar a um novo fio.
“Cada mulher tem um comprimento máximo de cabelo”, explica a médica. Isso não significa, porém, que seja impossível aproveitar melhor o potencial de crescimento de cada pessoa. “Quando há dificuldade para alcançar o comprimento desejado, o minoxidil pode ser uma opção em casos selecionados, mas a indicação depende de avaliação médica”, completa a especialista.
As mudanças hormonais da menopausa também merecem atenção. “A redução do estrogênio pode influenciar o ciclo capilar e contribuir para alterações na densidade e na qualidade do cabelo”, diz a dra. Luciana. Ela explica que a reposição hormonal, quando indicada, deve ser discutida com o médico para analisar as possibilidades.
Como cuidar do cabelo longo depois dos 50
Se a genética e as condições do couro cabeludo influenciam o crescimento, a maneira como cuidamos dos fios interfere diretamente na capacidade de conservar o comprimento. Para a dra. Luciana, um dos principais vilões é o dano térmico, provocado pelo uso frequente de secadores, chapinhas e modeladores.
A exposição ao calor pode comprometer a queratina, proteína que compõe a fibra capilar, além de prejudicar a camada lipídica que ajuda a protegê-la. O resultado é um fio mais vulnerável à quebra, especialmente nas pontas. Por isso, além de estimular o crescimento na raiz, é preciso evitar que o cabelo se parta antes de atingir o comprimento desejado. O protetor térmico é um aliado importante, mas a aplicação faz diferença. A médica recomenda distribuir o produto mecha a mecha, começando pelas pontas e subindo pelo comprimento. Produtos leves ajudam a proteger sem deixar os fios pesados.
A química também exige escolhas cuidadosas. Descolorações e processos repetidos podem aumentar os danos, ainda mais quando combinados com ferramentas de calor. Não é necessário abandonar a coloração, mas vale avaliar a frequência dos procedimentos e o estado dos fios antes de insistir em técnicas que fragilizam a fibra capilar.
Na lavagem, a delicadeza é fundamental. “O xampu deve ser aplicado no couro cabeludo, massageando suavemente. Deixe que a espuma escorra pelo comprimento, sem esfregar. Isso já é o suficiente para limpá-los. Friccionar os fios entre si ou amontoá-los no alto da cabeça enquanto estão molhados aumenta o risco de quebra, já que a fibra está mais vulnerável”, avisa.
Hidratação, nutrição e reposição de proteínas, conforme a necessidade do cabelo, completam os cuidados. Não existe uma única rotina ideal para todas: a escolha dos produtos deve levar em conta tanto as características do couro cabeludo quanto as condições do comprimento e das pontas. E a saúde capilar também depende de fatores que não se resolvem apenas com cosméticos. Deficiências nutricionais, como baixos níveis de ferro ou de determinadas vitaminas e minerais, podem interferir no crescimento e precisam ser investigadas quando há indicação clínica.
A ciência está perto de devolver a cor aos cabelos brancos?
Uma das pesquisas que chamou a atenção da dra. Luciana no Third Barcelona Hair Meeting, congresso internacional realizado na Espanha em setembro, envolve a rapamicina, uma molécula com ação imunossupressora. O estudo, publicado na revista EMBO Reports, investigou o papel da via celular mTORC1 no crescimento e na pigmentação dos cabelos.
Os pesquisadores observaram que a inibição dessa via pela rapamicina estimulou o crescimento e a pigmentação de folículos capilares humanos cultivados em laboratório, inclusive de alguns fios grisalhos ou brancos que ainda conservavam melanócitos funcionais, células responsáveis pela produção de pigmento. O trabalho sugere que, em determinadas condições, a perda de cor pode ser reversível.
A possibilidade de abandonar os fios brancos sem recorrer à tintura ainda pertence ao campo da investigação científica, mas a descoberta é promissora porque pode orientar o desenvolvimento de futuras estratégias para recuperar a pigmentação. “É apenas o início, mas isso abre um leque enorme de estudos”, avalia Luciana. Para a médica, compreender quais mecanismos permitem que alguns folículos voltem a produzir melanina pode ajudar a encontrar alternativas no futuro.
FONTE:/vogue/BR



