Adéla: “Faço qualquer coisa por um grande momento fashion”

São 21h de uma terça-feira e estou quatro andares abaixo do solo, em uma boate lotada no centro de Londres. Ao meu redor, cerca de 2 mil jovens da geração Z, de perucas cor-de-rosa e meias arrastão, cantam a plenos pulmões, entre uma tragada discreta no vape e outra, a letra de uma música ainda inédita. “Tenho garotos como se fossem máquinas de venda automática”, ecoam as vozes pelo salão enquanto Adéla, com seu corpo esguio de bailarina, aparece vestindo um bustiê de jeans e pedrarias, acompanhado de um short curtíssimo.

Ela joga os cabelos para trás à la Baywatch e ergue uma das pernas tão alto que consegue levá-la por cima da própria cabeça. (São movimentos que, se eu tentasse reproduzir, certamente exigiriam a presença de uma equipe médica.) Nas músicas mais agitadas, entrega coreografias dignas do auge de Britney Spears; nas baladas, aposta em vocais à altura de Christina Aguilera. Entre uma apresentação e outra, ainda encontra espaço para piadas atrevidas e palavrões. Adéla domina o palco como uma artista veterana.

Doze horas depois, a cantora eslovaca circula por uma sala de ensaio iluminada pela luz natural na Escola de Balé Nacional da Inglaterra. Ela gira sem parar, como um dervixe, vestida com um longo preto da Chanel, durante o ensaio fotográfico para a edição britânica da Vogue. Lá fora, agosto ainda ferve em meio a uma onda de calor. Se está cansada, Adéla não demonstra. “Acho que ter 22 anos ajuda”, diz, com um sorriso travesso, enquanto conversamos depois da sessão. Ela passa os longos dedos, com unhas postiças pontiagudas, pelos cabelos cor-de-rosa que já se tornaram sua marca registrada. Recentemente, trocou o tom pastel por um magenta mais escuro e intenso. “Meus fãs dizem que fico mais poderosa quanto mais rosa meu cabelo está.”

Seu olhar se volta para as barras de balé e as paredes espelhadas. Por um instante, ela faz uma pausa. Aquele lugar faz parte de sua história: aos 15 anos, Adéla deixou Bratislava para estudar dança justamente naquelas salas. “Conheci aqui um dos meus melhores amigos, Luca. Ele foi meu primeiro fã”, conta. “Ele dizia: ‘Acho que você poderia ser uma estrela pop’. Tenho lembranças muito boas daqui.”

Jaqueta corset de seda e saia, Dilara Findikoglu. Gargantilha de veludo e zircônias, Heavenly London. — Foto: Annie Reid

A trajetória de Adéla até se tornar uma das revelações musicais mais comentadas do ano foi acompanhada de perto pelo público. Em 2023, ela foi selecionada para participar do reality show de K-pop que deu origem ao grupo Katseye, mas acabou eliminada nas primeiras etapas. Apesar de ter conquistado uma legião de fãs na série documental que a Netflix lançou posteriormente, os jurados perceberam que seu caminho provavelmente seria o de uma carreira solo. Adéla soube aproveitar a exposição: lançou suas primeiras músicas e videoclipes de forma independente e conquistou um público fiel entre os aficionados por pop na internet. Em 2025, assinou contrato com a Capitol Records e, no verão passado, lançou seu EP de estreia, The Provocateur, recebido com entusiasmo pela crítica. A capa do trabalho, que chama a atenção pela provocação, mostra a cantora levantando o vestido e urinando na rua. Dá para entender por que ela não parecia destinada ao universo comportado de um grupo pop fabricado pela indústria.

Quando nos encontramos, Adéla está prestes a dar seu maior salto profissional até agora. Pouco mais de uma semana depois, lançará seu primeiro álbum, Prima, enquanto o terceiro single do disco, “Ain’t In LA”, sobe rapidamente nas paradas internacionais. A faixa lembra os grandes sucessos que dominaram o mundo durante a fase Bangerz, de Miley Cyrus, e celebra as garotas descoladas de cidades pouco conhecidas espalhadas pelo planeta. “É tudo mentira, as garotas mais poderosas não estão em Los Angeles”, canta Adéla no refrão eufórico.

No videoclipe, ela aparece correndo pelas ruas de Bratislava, posando ao lado de crianças que dançam break usando trajes típicos eslovacos e se divertindo em casa com a mãe e a irmã mais nova. As duas estão em Londres para o show e acompanham a sessão de fotos, visivelmente orgulhosas. Seu single mais recente, “Nicole Kidman”, também começa a viralizar. O clipe faz referências a alguns dos papéis mais conhecidos da atriz, incluindo Moulin Rouge: Amor em Vermelho (“Moulin Rouge, meu espartilho está apertado demais”), além de brincar com o famoso comercial da AMC que virou fenômeno na internet. A própria Kidman aprovou a homenagem e definiu Adéla como “muito talentosa”.

A gravadora não acreditava que “Ain’t In LA” deveria ser lançada como single, e Adéla precisou insistir para que isso acontecesse. “Existem tantas forças em jogo que tentam puxar um artista para mil direções diferentes. As pessoas querem o melhor para você. Não é que sejam más, mas podem acabar afastando você de algo realmente muito bom”, afirma. Sua avaliação sobre o motivo de a equipe não ter entendido a música de imediato é igualmente direta: “Acho que as pessoas da minha gravadora não se identificaram tanto com ela porque são jovens ricos de Los Angeles. Não quero ofender ninguém, mas é verdade. E boa parte da indústria musical é assim”.

Jaqueta corset de seda e saia, Dilara Findikoglu. Gargantilha de veludo e zircônias, Heavenly London.Vestido de alças, camiseta e meia-calça, Marc Jacobs. Botas de segunda mão, eBay. Colar, Completedworks. — Foto: Annie Reid

É justamente essa franqueza, acompanhada de um senso de humor afiado, que conquistou sua base de fãs, em rápido crescimento. Adéla já soma mais de 3 milhões de seguidores no Instagram e no TikTok, número que continua aumentando. Ainda está aprendendo a lidar com a intensidade da fama, especialmente depois que parte do público reagiu à mudança de sonoridade: do electroclash mais agressivo de seu EP para o pop mais polido de Prima. “Entrar nas redes sociais e ver o que todo mundo está dizendo… Acho que ainda vou aprender a lidar com isso”, comenta. Por um instante, sua expressão fica mais séria. “É definitivamente difícil.”

A ascensão meteórica também já fez dela uma queridinha do mundo da moda. Trabalhando com o diretor criativo Chris Horan, stylist de longa data de Charli XCX e um dos responsáveis pela estética que deu origem ao universo de Brat, Adéla já estrelou uma campanha da MAC Cosmetics, ocupou um lugar na primeira fila do desfile da Saint Laurent durante a Semana de Moda de Paris e chamou a atenção com um look da Marc Jacobs no CFDA Awards, acompanhado de plataformas altíssimas. “Precisei me apoiar em alguém para conseguir andar com aqueles sapatos”, conta, às gargalhadas. “Durante todo o evento, as pessoas ficavam me passando umas para as outras, como se eu fosse um bebê. Mas faço qualquer coisa por um grande momento de moda.”

Vestido de couro, saia de viscose com franjas e sapatos de couro laminado, Chanel. — Foto: Annie Reid

Adéla é uma estudiosa dedicada da cultura das estrelas pop e se anima quando menciono a plateia da noite anterior, em que muitos fãs apareceram caracterizados como ela, com perucas e polainas. O visual mais popular era composto por camisetas pink com a frase: “As garotas mais poderosas estão em Londres”. “Definitivamente, acho que isso faz parte do que toda boa estrela pop precisa ter”, diz. “Quando eu tinha nove anos, usava um rabo de cavalo meio preso todos os dias, sem exceção, por causa da Ariana Grande.”

Tenho a impressão de que é para aquela menina que Adéla faz tudo isso. Não exatamente para os fãs que acompanham sua carreira pelas redes sociais, nem inteiramente para si mesma hoje, mas para a garota que cresceu em Bratislava com pôsteres de Ariana, Miley Cyrus e Beyoncé nas paredes do quarto. “Queria fazer um álbum que, se eu tivesse ouvido aos nove, dez ou onze anos, teria pensado: ‘Isso é incrível’.”

Vestido de georgette de seda com detalhe em painel de veludo, McQueen. — Foto: Annie Reid

FONTE:/vogue/BR

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