Pesar do rei Charles por escravidão é posto à prova à medida que movimento por reparações ganha força

Resumo
O rei Charles enfrenta pressão de líderes caribenhos na cúpula da Commonwealth por reparações históricas ligadas à escravidão. Apesar de expressar pesar pelas injustiças do passado e apoiar pesquisas sobre os vínculos da monarquia com o tráfico negreiro, a Coroa britânica resiste a um pedido formal de desculpas e a indenizações financeiras. Por sua vez, ativistas e representantes locais exigem ações concretas além do discurso, focando em alívio de dívidas e financiamento para desenvolvimento.

Desde 2022, o rei Charles tem ‌manifestado pesar pelo sofrimento causado pela escravidão, sem, no entanto, ultrapassar um limite ao qual o Reino Unido há muito resiste: um pedido de desculpas.

Esse equilíbrio provavelmente será posto à prova na cúpula da Comunidade Britânica, na próxima semana, em Antígua e Barbuda, onde se espera que os líderes caribenhos que apoiam uma campanha ⁠por reparações por meio da Comunidade do Caribe (Caricom) defendam sua causa.

O Palácio de Buckingham ‌indicou que Charles não pediria desculpas em nome do Reino Unido, que repetidamente descartou reparações financeiras por seu papel no tráfico transatlântico de escravos.

Em discurso nas ‌Bahamas na terça-feira, antes da Reunião dos Chefes ‌de Governo da Comunidade Britânica que começa no domingo, Charles afirmou que ⁠era “justo que reconheçamos o grande sofrimento e as injustiças do passado” e disse que os líderes dos países afetados discutiriam a questão na cúpula.

Mas Niambi Hall Campbell-Dean, presidente do Comitê Nacional de Reparações das Bahamas, disse que isso não foi suficiente. “Não precisamos de mais palavras cuidadosamente elaboradas sobre reconciliação”, disse ela em comunicado. “Precisamos de ‌ações à altura da magnitude do dano infligido.”

Do século 15 ao 19, pelo menos ‌12,5 milhões de africanos foram ⁠sequestrados e vendidos como ⁠escravos por comerciantes europeus, com o Reino Unido transportando cerca de 3,2 milhões de pessoas ⁠através do Atlântico, tornando-se uma das maiores ‌nações envolvidas no tráfico de ‌escravos, de acordo com o Banco de Dados do Tráfico Transatlântico de Escravos.

Alan Lester, historiador da Universidade de Sussex cuja pesquisa abrange os legados da escravidão e do império, afirmou que os oponentes do movimento pelas reparações “conseguiram transformar ⁠em arma” a ideia de que reparações significariam simplesmente preencher um cheque — uma ideia que poucos governos ocidentais aceitariam.

Em vez disso, os líderes caribenhos costumam formular suas demandas em termos de alívio da dívida, financiamento para o desenvolvimento, educação, saúde e resiliência climática — medidas que, segundo ‌eles, combateriam as desigualdades enraizadas na escravidão e no colonialismo.

O Palácio de Buckingham informou, em 2023, que Charles havia dado seu apoio a uma pesquisa que examinava ⁠as ligações da monarquia com a escravidão, depois que o jornal The Guardian publicou uma reportagem sobre um documento que revelava uma conexão histórica.

Em uma descoberta mais recente, a pesquisadora independente Desiree Baptiste disse à Reuters que seu livro a ser lançado, “George IV, Empire, and Objects of Prestige”, citaria documentos da Câmara dos Lordes e outros registros do governo britânico que mostram que os lucros derivados do trabalho escravo ajudaram a financiar móveis e trabalhos decorativos encomendados por George 4º nas residências reais.

O Palácio de Buckingham não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre as descobertas.

“Acho que o rei Charles 3º está em uma posição difícil, porque é possível expressar pesar por algo, mas um pedido de desculpas vai muito além”, disse a comentarista da realeza Afua Hagan.

FONTE:Terra

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