Como a perfumaria asiática está conquistando o mercado mundial de fragrâncias

Não se surpreenda se, em breve, você trocar seu Santal 33, da Le Labo, pelo Drunk Lovers, da marca sul-coreana Born To Stand Out, ou pelo Santal Cream, da Nonfiction. Puxado pela Coreia do Sul, o mercado de fragrâncias da Ásia-Pacífico passou de US$ 3,2 bilhões em 2019 para US$ 4,9 bilhões em 2024, segundo dados da empresa de pesquisa de mercado Euromonitor. Depois de revolucionar ativos, tecnologias e nossa própria relação com a beleza, agora é a vez das marcas asiáticas se tornarem grandes referências na perfumaria mundial.

“A cosmética sempre precedeu o perfume. A evolução da perfumaria sul-coreana é natural, quase uma extensão da K-beauty”, analisa Anne-Laure Pouquet, diretora de criação olfativa da empresa de fragrâncias International Flavors & Fragrances. A Coreia do Sul vem transformando também a maneira como compramos perfumes. “Em Seul, as lojas são totalmente imersivas, verdadeiras experiências artísticas”, diz Pouquet. Basta pensar na marca Tamburins, do grupo Gentle Monster, que cria grandiosas instalações artísticas em suas flagships, ou na Nonfiction, com espaços intimistas que lembram uma galeria de arte. Antes do frasco, há um universo no qual mergulhar.

“Ao contrário da perfumaria do Oriente Médio e da Europa, cuja tendência atual são fragrâncias opulentas, a perfumaria asiática é mais íntima, feita para si, e não para os outros”, aponta Renata Abelin, diretora de inovação e marketing da empresa de fragrâncias Givaudan Brasil. Uma preferência cultural de lá: para gerações anteriores, aromas muito perceptíveis podiam ser associados à vida noturna e até a certa vulgaridade. O ato de se perfumar era sutil: durante as dinastias coreanas Goryeo (918-1392) e Joseon (1392-1897), carregava-se junto ao corpo os hyangnang, pequenos sachês aromáticos utilizados também como ornamentos. Criador da marca BornToStandOut, recém-chegada ao Brasil, Jun Lim concorda: “Nós valorizamos o discreto, o suave – um perfume que cheire exata mente como a sua própria pele”. A label é parte de uma nova geração disruptiva, conhecida por subverter códigos culturais na identidade visual e na formulação das fragrâncias. O perfume Dirty Rice, desenvolvido a partir de 2020, antes da atual febre dos ultra gourmands (inspirados na confeitaria e na gastronomia), nasceu do cheiro do vapor que escapa da panela quando o arroz termina de cozinhar. Assinado pelo perfumista Olivier Cresp, associa arroz basmati ao leite, sândalo, almíscar e madeiras. A marca desafia também os limites de composição, com extratos que chegam a 60% de concentração e uma técnica particular de maceração realizada nos onggi, recipientes coreanos de cerâmica usados na fermentação do kimchi.

Antes da Coreia, porém, o Japão já questionava os códigos da perfumaria ocidental. Pioneira dessa contestação, a Comme des Garçons fez do estranho matéria-prima: no fim dos anos 1990, trocou flores por metal, asfalto, querosene e plástico e, depois, fez do incenso protagonista de uma coleção inteira. O novo To Vetiver, último perfume desenvolvido sob a direção artística de Christian Astuguevieille, morto em fevereiro passado, e composto por Antoine Maisondieu, segue a receita. Um dos mais antigos ingredientes, o vetiver é reconstruído entre mirra, a resina aromática opoponax, tomilho e moléculas sintéticas. Um pé na ancestralidade, outro no futuro.

Em outro espectro, algumas marcas exploram um Japão mais contemplativo. A J-Scent engarrafa referências profundamente japonesas como o hojicha– chá verde torrado– no seu Roasted Green Tea, além do limão yuzu e papel washi. A Kitowa fez das madeiras japonesas ligadas à arquitetura e à tradição do incenso, como o hinoki, sua assinatura– caso do seu Hinoki Eau de Parfum. Já a recém-lançada coleção Ginza, da Shiseido, casa o hinoki com o jasmim e a magnólia, num encontro entre códigos internacionais da per fumaria e matérias-primas carregadas de memória nipônica.

Na China, a revolução talvez seja ainda mais radical. Depois de décadas consumindo os códigos das grandes maisons estrangeiras, uma geração de marcas começa a se perguntar: afinal, qual é o cheiro da China contemporânea? Na To Summer, elementos profundamente nacionais ganham frasco: o chá oolong aparece em Void, enquanto Ink transforma tinta em matéria olfativa. A label Documents explora um repertório igualmente local: Cinnabar, por exemplo, revisita o incenso chinês em torno do agarwood. Já a Scent Library transforma memória coletiva em aroma no perfume Cool Bai Kai, inspirado na água fervi da no cotidiano dos lares chineses. A perfumaria chinesa mostra também que está pronta para desafiar as fronteiras. Recentemente, To Summer se associou à Isabel Marant para criar Blue Heat, um perfume em edição limitada apresenta do em uma pop-up em Xangai. Um símbolo de uma mudança de paradigma: ao invés de exportar seus códigos para a Ásia, Paris começa também a buscá-los ali.

E é nas matérias-primas que essa mudança se torna mais evidente. Arroz e matcha já entraram no léxico da perfumaria contemporânea; hinoki, yuzu, shiso e chás asiáticos seguem o mesmo caminho, enquanto referências como gergelim, missô e shoyu começam a aparecer no radar. “O próximo ingrediente a ganhar evidência é o osmanthus”, aposta Anne Laure Pouquet. Emblemática na China, a flor que cheira a damasco, chá e couro é diferente o suficiente para carregar um imaginário asiático e familiar o bastante para atravessar fronteiras. Em vez de fazer perfume à maneira do Ocidente, a Ásia ensina a fazer uma perfuma ria diferente: mais íntima e sutil, que prefere sugerir a anunciar, e oferece um novo território a quem já não se reconhece na opulência olfativa vigente.

FONTE:/vogue/BR

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