A leitura de uma entrevista recente do filósofo e sociólogo Gilles Lipovetsky sobre seu novo livro me fez confirmar que o básico contemporâneo e a ambição de uma elegância sustentável nunca estiveram tão em alta. Na moda, nada pode ser mais atual e “tranquilizador” para lidar com a velocidade acelerada do mundo e de tantos dispositivos “hiperconsumistas e hiperindividualistas” – para usar o vocabulário do escritor.
“Em uma época em que o indivíduo está estruturalmente desestabilizado, o luxo atua como um refúgio, oferecendo uma segurança simbólica diante do caos”, afirma o ensaísta francês, que diz que hoje o luxo não tem a ver com acúmulo de objetos ostentatórios ou de sinais exteriores de riqueza. Tornou-se “uma experiência de bem-estar voltada para a saúde, a tranquilidade, o sono de qualidade e a harmonia”. “Funciona como um meio de vivenciar melhor o instante e de esculpir a si mesmo em um mundo saturado de imagens digitais”, diz Lipovetsky.
“Ao mesmo tempo, a superexposição midiática dos produtos premium gera, paradoxalmente, uma nova forma de ansiedade: o medo obsessivo da mediocridade, o espectro do rebaixamento social e a angústia de ter que se contentar com um cotidiano de baixa qualidade”, afirma o autor do célebre O Império do Efêmero, livro lançado na década de 1980 e que virou um clássico ao sistematizar uma visão incontornável sobre moda.
Na dinâmica dessa transição conceitual – do material para o imaterial –, em que qualidade vale mais que quantidade, decidi compartilhar aqui, além das roupas de estética e design mais minimalista, todas atualíssimas, que ilustram este texto, um passo a passo para criar um guarda-roupa básico e luxuosamente compacto:
Separe as peças que não usa há mais de seis meses, as que não servem mais ou as que não combinam com você e com sua rotina atual e elimine-as com convicção. Doe ou repasse para lojas de second hand entrando voluntariamente na valorosa cadeia do design circular.
Defina a sua paleta de cores, escolha duas ou três mais neutras de base, tipo preto, branco, bege, marinho, e, se quiser, algumas cores vivas – verde-oliva, terracota ou azul-claro, por exemplo –, que combinem entre si (e com você) e que consigam potencializar sua assinatura visual.
Todas as suas roupas e acessórios devem indicar por onde você anda ou passa a maior parte do tempo. Considere sua rotina real em cada escolha e lembre-se de que peças essenciais mais elaboradas hoje circulam dos espaços de trabalho às ocasiões e compromissos casuais, inclusive noturnos.
Respeitando essa regrinha de versatilidade e multiúso, cheque se cada eventual nova peça e as que foram mantidas combinam compelo menos três outras que você já tem.
Ao decidir por um novo item, lembre- se que excelência e durabilidade estrutural se impõem, assim como os materiais usados. Marcas de alto padrão apostam atualmente em algodão orgânico certificado, lã e cashmere de origem responsável e linho. Foque em monomateriais – fabricados só com uma matéria-prima – para eventual reciclagem e/ou reúso das peças.
Por fim, nunca é tarde para entender, como diz Lipovetsky, que, ao adquirir uma peça icônica carregada de história, “o indivíduo ultrapassa o simples ato de consumo. Ele se arranca da inconsistência do ‘descartável’ e encontra, nessa ancoragem memorial, o solo firme e seguro de uma certa perenidade”. Melhor, impossível.
Em tempo: A Odisseia da Superpotência: hiperpoder e fragilidade generalizada (Editora Manole), o novo livro de Lipovetsky, será lançado em outubro no Brasil.
FONTE:/vogue/BR



