Um novo fóssil de dinossauro encontrado no nordeste da China está ajudando cientistas a entender como características relacionadas ao voo surgiram entre os parentes mais próximos das aves. Batizado de Norellraptor barsboldi, o pequeno animal tinha cerca de 57 centímetros de comprimento, quatro conjuntos de membros cobertos por penas e uma longa cauda plumada.
A análise indica que dinossauros do grupo dos microraptoríneos e as aves podem ter desenvolvido estruturas semelhantes de maneira independente. O estudo que descreve a nova espécie foi publicado na revista científica Nature Communications.
Um fóssil raro de “quatro asas”
Os pesquisadores Andrea Cau, Qiang Ji, Xuri Wang e colegas analisaram o fóssil, encontrado na Formação Jiufotang, na província de Liaoning, e o compararam com outros dinossauros do grupo dos paravianos, que inclui as aves e seus parentes extintos.
O exemplar está excepcionalmente preservado. Além do esqueleto praticamente completo, foram identificados vestígios de penas nas patas dianteiras, nas patas traseiras e na extremidade da cauda. A característica deu aos microraptoríneos a fama de serem dinossauros de “quatro asas”.
Caminhos diferentes para o voo
Os microraptoríneos viveram principalmente no território que hoje corresponde ao nordeste da China, durante o Cretáceo Inferior, entre aproximadamente 125 milhões e 113 milhões de anos atrás. O grupo está entre os menores dinossauros conhecidos e inclui animais com adaptações que podem estar relacionadas à locomoção aérea.
Ainda não é possível afirmar se o Norellraptor barsboldi conseguia voar. A presença de penas longas nos quatro membros, porém, mostra que esses animais possuíam características associadas ao voo e alimenta o debate sobre como eles se deslocavam.
Para investigar a origem dessas características, os pesquisadores compararam a anatomia do Norellraptor com a de outros microraptoríneos e com a das aves. Foram identificadas 194 mudanças anatômicas ao longo da evolução do grupo, das quais aproximadamente 30% também apareceram na linhagem das aves.
O dado mais importante, porém, está na sequência em que essas transformações ocorreram. Embora alguns dos mesmos traços tenham surgido nos dois grupos, eles não apareceram na mesma ordem.
A ordem das transformações físicas
Entre as características compartilhadas estão o aumento do número de costelas ligadas ao esterno, a presença de penas no polegar, chamadas de penas alulares, e o fortalecimento dos membros anteriores.
Segundo os pesquisadores, a diferença na ordem dessas mudanças enfraquece a hipótese de que microraptoríneos e aves tenham simplesmente herdado de um ancestral comum o mesmo conjunto de estruturas relacionadas ao voo. A interpretação apresentada no estudo é que os dois grupos podem ter seguido processos evolutivos e sofrido diferentes pressões seletivas.
A preservação do Norellraptor permitiu aos pesquisadores investigar até mesmo a idade que ele tinha quando morreu. A partir da análise microscópica da estrutura de um dos ossos do antebraço, o rádio esquerdo, eles estimaram que o animal tinha pelo menos três anos. A comparação com exemplares jovens e adultos de outros microraptoríneos indica que se tratava provavelmente de um indivíduo adolescente.
Segredos guardados na rocha
O fóssil foi encontrado na região de Lamadong, em Liaoning, por um agricultor que preferiu não ter sua identidade divulgada. O exemplar foi posteriormente doado, em 2023, ao Museu da Universidade GEO de Hebei. A Formação Jiufotang, onde o animal foi encontrado, é conhecida pela preservação excepcional de fósseis. A região de Liaoning também abriga a Formação Yixian, que conserva penas, tecidos moles e esqueletos tridimensionais de diversos animais do período.
Apesar das evidências, os cientistas ressaltam que ainda não é possível determinar se o Norellraptor era capaz de realizar voo ativo, se apenas planava ou se utilizava suas penas de outra maneira. Também são necessários novos fósseis e análises de crescimento ósseo para verificar se a evolução independente de características relacionadas ao voo ocorreu em outros grupos de dinossauros próximos das aves.
A descoberta, portanto, acrescenta uma nova peça ao debate sobre a origem do voo. Em vez de uma única trajetória evolutiva, diferentes grupos de dinossauros podem ter experimentado soluções próprias para desenvolver estruturas associadas à locomoção aérea.
FONTE:CNN/BR



