Um Nobel para quem iluminou o cérebro – 08/10/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Os benefícios da ciência servem para todos, mas acho que nada se compara ao prazer de encasquetar com uma pergunta, inventar uma maneira de sair revirando pedras e olhando atrás do que parecia óbvio, e encontrar respostas que mudam nossa maneira de ver o mundo. Karl Deisseroth, mais novo agraciado com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, fez tudo isso –e já contou a estória.

Em seu livro “Conexões: Uma História das Emoções Humanas” (2022), Deisseroth conta como a psiquiatria acendeu sua vontade de entender os circuitos do cérebro por trás dos nossos sentimentos e comportamentos. Ele é um dos raros médicos-pesquisadores nos EUA, formação dupla que exige um total de dez anos de estudos universitários.

No Brasil, forma-se médico em seis anos de graduação. Nos EUA, são quatro anos de graduação mais quatro de escola de medicina para se formar médico e poder seguir carreira clínica. Quem quiser ser médico-pesquisador precisa de ao menos outros dois anos de pós-graduação para obter um doutorado. A vantagem é que, para estimular tanta dedicação, o curso costuma ser totalmente subsidiado –um baita incentivo, pois a pós-graduação em medicina custa uma fortuna nos EUA.

Deisseroth se formou na Universidade Stanford e ficou por lá, combinando atendimento psiquiátrico com pesquisa sobre como a atividade se espalha ao longo dos neurônios em um circuito. Na época em que se formou, em 2000, as ferramentas disponíveis para estudar os circuitos no cérebro eram eficazes, mas grosseiras. Com um microeletródio, na prática uma agulha fina inserida na estrutura desejada do cérebro, era possível passar corrente elétrica e forçar a atividade de neurônios no local –mas às escuras, sem escolher ou saber quais neurônios eram ativados. Na prática, todo neurônio ou até fibra na vizinhança é acionado.

O problema é que mesmo os neurônios dentro de uma estrutura têm propriedades diferentes, fazem conexões diferentes e, portanto, têm funções diferentes no cérebro. “Ligar” uma estrutura inteira no cérebro com eletricidade pode surtir efeito, mas não informa sobre qual parte ou circuito daquela estrutura fez o efeito acontecer.

Um Deisseroth decepcionado com essas falhas e ativamente buscando uma alternativa para controlar quais neurônios eram ativados no cérebro leu, em 2003, que dois cientistas alemães, Georg Nagel e Peter Hegemann, tinham descoberto em uma alga uma proteína fotossensível que funcionava como um canal. Sob luz azul, e somente sob luz azul, a proteína se abria, deixando passar íons e, portanto, corrente elétrica –como em neurônios.

Bastou um email de Deisseroth para Nagel, pedindo o DNA que permitiria fazer neurônios produzirem essa proteína da alga. Nagel concordou, e fez-se história: dois anos depois, eles publicaram o primeiro estudo mostrando que a proteína da alga tornava neurônios sensíveis à luz azul. O passo seguinte foi usar manipulação genética para restringir a proteína fotossensível a neurônios específicos, o que permitiu usar luz, injetada no cérebro por uma fibra óptica, para ativar somente os neurônios desejados. Logo outra proteína foi adicionada que, sensível à luz vermelha, permitia, ao contrário, inativar os neurônios selecionados.

Pronto: agora é possível dissecar circuitos cerebrais usando genética e luz –donde o nome dado por Deisseroth à sua nova ferramenta, a optogenética. Vinte anos depois, ela já é prática convencional em neurociência. Nobel merecidíssimo.


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FONTE: Google

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